Histórias de Sucesso

Projeto Mais Grãos

Potencial ampliado

Iniciativa do Sebrae Minas aumenta produtividade de lavouras de soja, milho e sorgo, recupera áreas degradadas e conecta produtores do Centro-Oeste mineiro ao mercado


Daniela Maia

Em muitas propriedades rurais do Centro-Oeste de Minas Gerais, a terra sempre teve produtividade em potencial, mas nem sempre foi explorada em sua máxima capacidade. Pastagens degradadas, decisões baseadas na experiência e pouca integração com o mercado eram parte da realidade de produtores que, embora experientes, ainda não tratavam a produção de grãos como um negócio estratégico.

Foi nesse cenário que, em 2021, nasceu o projeto Mais Grãos, iniciativa do Sebrae Minas que vem transformando a produção de soja, milho e sorgo em municípios como Divinópolis, Carmo da Mata e Pará de Minas. Para além de aumentar a produtividade, a proposta é a de uma mudança de mentalidade: fazer com que o produtor rural enxergue sua lavoura como uma empresa, com gestão, planejamento e foco em resultados.

O projeto Mais Grãos conecta os produtores ao mercado demandante de grãos, especialmente empresas das cadeias de avicultura e suinocultura, facilitando o escoamento da safra e garantindo melhores condições de negociação. Ao mesmo tempo, oferece consultoria, apoio no planejamento da safra, análise de solo, escolha de insumos, monitoramento da produção e gestão dos custos.

Em muitas propriedades, áreas antes degradadas passaram por um processo cuidadoso de recuperação. O trabalho envolve controle da erosão, construção de curvas de nível e estruturas que desaceleram o escoamento da água. E se a terra muda, a forma de pensar também. Ao longo do projeto, os participantes começam a medir aquilo que antes era apenas percebido: eficiência do plantio, controle de pragas, produtividade por área, custo de produção e rentabilidade.

O projeto Mais Grãos conecta os produtores ao mercado demandante de grãos, especialmente empresas das cadeias de avicultura e suinocultura

A lavoura passa a ser analisada como uma operação estruturada. “Essas áreas que antes não produziam passam a dar resultado. Quando o produtor vê isso, ele volta a investir, melhora a fertilidade, cuida mais da terra. É um ciclo que se sustenta. Os números revelam onde estão os gargalos e, principalmente, onde estão as oportunidades”, explica o consultor do Mais Grãos e do Sebraetec, André Lopes, que acompanha de perto os produtores.

Mas talvez a mudança mais importante esteja na forma como o produtor passa a enxergar sua produção. “Muitos tinham várias atividades, como comércio, pecuária e outros negócios, e conseguiram a ver a lavoura como mais uma empresa. Este foi um dos grandes diferenciais. Eles começaram a olhar para dentro da operação, entender custos, ajustar processos”, afirma André.

Esse novo olhar se reflete em decisões mais estratégicas. Em um grupo formado atualmente por 27 produtores, a troca constante de informações se tornou um dos principais ativos. Dados compartilhados ajudam a identificar oportunidades de economia, como negociações mais vantajosas na compra de insumos, que chegaram a gerar reduções de até 20% nos custos. Na prática, o conhecimento passa a circular com a mesma força com que a produção cresce.

Da intuição à gestão

Para a produtora Rosilea Silva Othero, a mudança proporcionada pelo Mais Grãos veio acompanhada de um novo tipo de segurança. Veterinária de formação, ela construiu sua trajetória profissional longe da rotina atual. Há mais de duas décadas, atua no ramo de suinocultura e bovinocultura e, durante anos, dividiu o tempo entre um hospital veterinário em Nova Lima e a fazenda. Hoje, ela também lidera decisões estratégicas que vão da produção à comercialização de grãos.

A empresa de Rosilea atua na comercialização e armazenagem de grãos em Carmo da Mata
Crédito: Obelisco Filmes

Há cerca de quatro anos, Rosilea investiu na criação de um armazém em Carmo da Mata. A empresa é focada na comercialização e armazenagem de grãos, como soja e milho. E foi justamente esse movimento que a aproximou do projeto Mais Grãos. Mesmo com experiência, ela encontrou na iniciativa um novo patamar de acompanhamento técnico. “Tivemos suporte em tudo: análise de solo, escolha de insumos, manejo, acompanhamento durante todo o processo. Isso trouxe um aumento de cerca de 10% na produtividade.”

Ao falar sobre o impacto, ela faz uma pausa. E muda o foco. “O maior ganho foi o conhecimento. A gente aprende coisas que não fazia antes e que vão ficar para sempre. O técnico traz uma visão ampla, dá segurança. É um aprendizado que levamos para as próximas safras, para a vida.” Com silo de capacidade de armazenamento de cerca de 300 mil sacas, Rosilea já projeta o futuro: quer, nos próximos anos, ampliar essa estrutura para atingir 1 milhão de sacas.

Thiago Oliveira Barreto, produtor de Divinópolis e Itapecerica, é outro integrante do Mais Grãos. Filho de produtores rurais, ele cresceu no campo, mas construiu uma história que passou por diferentes caminhos. Técnico agrícola, trabalhou com aviação agrícola em Mato Grosso por quatro anos uma experiencia que ampliou seu olhar sobre a agricultura. De volta as origens, ele se prepara para concluir a graduação em Engenharia Agronômica.

Na propriedade, Thiago trabalha com uma equipe enxuta e produção significativa: são 18 mil sacas de soja e 15 mil de milho por safra. No projeto há três ciclos, ele encontrou no Mais Grãos um diferencial que vai além dos números. “O consultor enxerga coisas que, às vezes, a gente não vê. Ele já acompanhou outros produtores, já viu situações parecidas. Essa troca de experiencias e o que mais faz diferença”, relata.

Essa transformação se traduz em resultados concretos. Com orientações mais precisas, Thiago conseguiu melhorar o manejo e aumentar a eficiência da produção. “Com posicionamento mais assertivo, consigo controlar pragas com menos custo. Isso gera resultado na produção final. Consegui economizar e melhorar a produtividade do meu negócio”. Hoje, toda a sua safra e vendida para a Avivar, o que traz previsibilidade e segurança.

Thiago Barreto produz 18 mil sacas de soja e 15 mil de milho por safra em Divinópolis
Crédito: Obelisco Filmes

Integração e ganho para todos

Enquanto os produtores ganham eficiência e escala, a indústria também se fortalece. O projeto Mais Grãos nasceu, em parte, de uma necessidade concreta: garantir o abastecimento regional de grãos para cadeias como a avicultura e a suinocultura.

A Avivar, uma das principais empresas do setor, enfrentava um cenário desafiador poucos anos atrás. Em 2019, apenas 18% dos grãos utilizados vinham da própria região. O restante precisava ser buscado em outras localidades, elevando custos logísticos e reduzindo a competitividade.

Com o apoio do Sebrae Minas, a iniciativa ganhou escala e estrutura. Hoje, o cenário é outro: mais de 55% dos grãos consumidos já são adquiridos no Centro-Oeste mineiro. “O projeto mostrou que havia oportunidade. Atualmente, temos um grão com custo mais adequado, mais atraente. Ao mesmo tempo, conseguimos garantir mercado para os produtores e elevar o padrão de qualidade,” aponta Sara Costa, diretora de Gente e Gestão da Costa Foods Brasil, do qual a Avivar faz parte. “A indústria ganha, assim como o produtor, o comércio e a prefeitura. O dinheiro circula na região, conseguimos trabalhar todo o ecossistema”, completa.

Para o Sebrae Minas, este é justamente o ponto central da iniciativa. “O projeto Mais Grãos se conecta diretamente à vocação produtiva das cidades do território, porque a região Centro-Oeste mineira concentra grandes demandantes de grãos. A iniciativa fortalece a produção regional desses produtos, reduz a dependência logística externa e alinha a oferta agrícola à forte demanda das cadeias de aves e suínos, consolidando o território como polo agroindustrial integrado”, explica Leonardo Mól, gerente regional do Sebrae Minas.

A visão de longo prazo é um diferencial do projeto, mostrando ao produtor a lucratividade e a rentabilidade do negócio. “O Sebrae Minas oferece assistência técnica ao longo de todo o ciclo produtivo, do planejamento da safra à pós‑colheita. Esse acompanhamento integral garante decisões mais assertivas e melhores resultados produtivos e consolida um modelo sustentável de desenvolvimento rural, o que diferencia o programa de outras iniciativas do agronegócio”, afirma.

Assista

Veja a videorreportagem sobre o projeto Mais Grãos clicando aqui.