Heloise Duarte, cofundadora da ESGpec, explica a relevância da mensuração da pegada de carbono via programa Educampo, do Sebrae Minas
Além de um compromisso ambiental, a descarbonização na pecuária leiteira é pilar estratégico de eficiência e competitividade. Isso é o que aponta um estudo inédito da Cargill Nutrição e Saúde Animal, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e a Embrapa Gado de Leite, divulgado no último mês de março. O trabalho indica que a produção leiteira brasileira apresenta emissão de carbono inferior à registrada no cenário internacional e que a adoção de boas práticas de sustentabilidade, como o manejo adequado de pastagens e a nutrição animal especializada, mitigam emissões e tornam o sistema mais resiliente e rentável, permitindo ganhos de escala na mesma área de terra.
Para contribuir para essa jornada de maturidade ESG (Environmental, Social and Governance, em inglês, e Ambiental, Social e Governança, em português) das fazendas leiteiras, a mensuração da pegada de carbono das propriedades acompanhadas pelo programa Educampo foi iniciada em 2024, já tendo o primeiro ciclo concluído. Para entender a relevância do trabalho e seus resultados, a Revista Histórias de Sucesso conversou com Heloise Duarte, cofundadora da ESGpec, parceira do Sebrae Minas na iniciativa.
O que é a descarbonização?
Descarbonização se refere a qualquer processo criado e realizado para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE), responsáveis pelo aquecimento global, associadas a uma atividade, produto ou empresa. No agro, especificamente na pecuária leiteira, não quer dizer que tenhamos de parar de produzir os gases. Quer dizer que temos de produzir melhor, com mais eficiência, menos desperdício, melhor uso dos recursos naturais e menor emissão de gases de efeito estufa por unidade produzida. Então, na pecuária leiteira, estamos descarbonizando quando conseguimos emitir menos gases de efeito estufa por quilo de leite corrigido para gordura e proteína. Essa que é a métrica utilizada. Ou seja, corresponde à quantidade de CO₂ equivalente emitida para produzir cada quilo de leite.
Qual a importância desse processo?
Como tudo na vida, se não fazemos medição, não conseguimos gerenciar. Então, para descarbonizar, precisamos ter estratégias técnicas e traçar um plano de ação para que a produção de alimentos de origem animal seja competitiva, eficiente e menos poluidora e impactante no efeito estufa mundial. Ou seja, precisamos produzir com mais eficiência e garantir alimentos de qualidade e com menos impactos ambientais. A importância do diagnóstico sobre a emissão de gases de efeito estufa é que, a partir dele, tem-se os valores de referência e consegue-se identificar qual o total emitido em cada fase do processo para cada quilo de leite produzido. É possível avaliar se a atividade é uma fase deficiente, se pode melhorar, se está emitindo muito. E é possível verificar onde está ocorrendo a emissão também, que é o ponto importante, e onde estão as maiores fontes de emissão. Na pecuária leiteira, a fermentação entérica é um grande emissor, aquele famoso arroto da vaca. Isso ocorre porque os bovinos têm a capacidade de transformar alimentos fibrosos e de pouco valor nutricional para os humanos em alimentos de alto valor nutricional, que são leite e carne. Mas o preço disso é produzir o metano, um gás com poder de aquecimento maior do que o de CO₂, 28 vezes mais potente em termos de aquecimento. Depois vem o manejo de dejetos, o uso de fertilizantes, o uso de energia nos processos produtivos e alimentação.
Além disso, o processo está alinhado a algumas exigências de mercado, embora a produção agropecuária brasileira não precise reportar as emissões, por força de lei. Porém, existem várias linhas de financiamento que favorecem os produtores que fazem essa jornada de medir, controlar e ser mais eficiente. A indústria do leite, que muitas vezes é multinacional, também exige reportes de ESG, além de o consumidor final estar cada vez mais atento a tais aspectos no momento de fazer suas escolhas. É uma tendência.
Há um processo de descarbonização no agro que é referência?
Sim, o processo de descarbonização na pecuária leiteira usado nos Estados Unidos há algumas décadas. Ao longo do tempo, os produtores de lá têm buscado ser cada vez mais eficientes e, atualmente, eles estão em um nível muito interessante. O Brasil tem um potencial enorme de descarbonizar, porque aqui há muitas oportunidades. Se olhamos a agropecuária como um todo, ela é responsável por quase 30% das emissões nacionais. Com o inventário nacional de gases de efeito estufa passamos a atuar nisso de forma mais sistemática, medindo e reduzindo muitas emissões de um modo geral.
Quais são os desafios e oportunidades dos pequenos negócios do agro na descarbonização?
O principal desafio para pequenos produtores é lidar com o universo complexo de práticas ESG e transformar isso numa linguagem possível de se aplicar à rotina das fazendas. Muitas vezes o produtor já faz as boas práticas, só que ele não mede, não registra e não consegue demonstrar o que tem feito. E como transformar alguma coisa que ele faz no seu dia a dia em algo que possa reportar e se beneficiar desse reporte? A gente tem um desafio da maturidade ESG, que é trabalhar para desmistificar, mostrar que isso não é um bicho de sete cabeças, que tem muita coisa na rotina do pequeno e do médio produtor já alinhada à agenda ESG.
O segundo desafio é a falta de maturidade digital do produtor. Para transformar uma atividade da fazenda em uma pegada de carbono, é preciso ter dados sobre aquisição de insumos e uso de fertilizante, do rebanho, do manejo de dejetos. Muitas vezes, o produtor não tem nada disso estruturado. Mas não é algo impossível de ser feito, e é importante para o produtor melhorar a eficiência da atividade, para que consiga efetivamente medir e comprovar as práticas alinhadas a ESG.
E ressalto: quando falamos de descarbonizar, falamos de uma jornada que impacta no meio ambiente e também passa por uma agenda de aumento da eficiência de gestão e da produtividade, viabilizando que o produtor permaneça por mais tempo no mercado, de forma competitiva. Se temos um produtor pequeno ou médio que faz a gestão, faz seus controles, acompanha suas métricas, ele vai também estar preparado para poder fazer a medida da pegada de carbono, bem-estar animal e agenda ESG como um todo.
Fale sobre o trabalho junto ao Educampo para mensuração da pegada de carbono das propriedades leiteiras acompanhadas pelo Sebrae Minas.
A iniciativa surgiu da oportunidade de utilizar a inteligência gerada pelo banco de dados do Educampo. Como eu mencionei, essa é a etapa mais crítica do trabalho e, no Educampo, tudo está contabilizado para o acompanhamento permanente dos resultados das propriedades. E a maturidade digital, outro gargalo, não é um problema para os produtores atendidos pelo programa, já habituados a coletar dados de consumo, do rebanho, de produção. Pensamos: se já existem dados estruturados, por que não terminamos de fazer o complemento para medir a pegada de carbono? Então começamos a fazer o trabalho com uma parte das fazendas. Pegamos os dados de rebanho, econômico, financeiro e fizemos o de-para, sem precisar lançar nada de novo, apenas o complemento de algumas informações. Usamos a ferramenta PEC Calc, que calcula indicadores relativos à emissão de GEE, para calcular a pegada de carbono do leite. E, como os técnicos conheciam muito bem as fazendas, pudemos fazer avaliações de bem-estar animal e da agenda ESG como um todo. Iniciamos o trabalho captando os dados de 12 meses, de julho de 2024 a junho de 2025. Depois, tivemos um período para consolidar o lançamento dos dados na plataforma, seguindo para as análises, os diagnósticos e, finalmente, os cálculos. No final do ano passado, o relatório foi divulgado. Terminamos essa fase do projeto com uma análise completa da agenda ESG para os participantes, todos receberam as suas medições. Foi uma oportunidade de entender o cenário dessas fazendas e as oportunidades de melhoria em cada um desses setores. Agora, já estamos no segundo ciclo de medições, que se encerra em julho de 2026. Será um processo contínuo, a cada ciclo.
Pode nos falar sobre números, houve resultados robustos?
Sim, os números são robustos. Em estudo técnico da Embrapa com pegadas de carbono calculadas em fazendas leiteiras brasileiras, os resultados foram discutidos à luz de faixas de referência usadas para orientar estratégias de mitigação. Nesse contexto, propriedades entre 0,7 e 1,5 kg CO₂eq/kg FPCM são associadas a elevado nível de eficiência, ainda com oportunidades de redução de emissões. Nessa leitura, os indicadores observados no projeto ficam dentro de uma faixa eficiente. Considerando a média das pegadas calculadas individualmente para cada fazenda, o resultado observado foi de 1,33 kg de CO₂eq por kg de leite corrigido (FPCM). Quando ponderado pelo volume total produzido, o indicador é de 1,15 kg CO₂eq/kg FPCM.
Como referência internacional, estudos globais da FAO indicaram médias ao redor de 2,4 kg CO₂eq/kg FPCM para leite na porteira da fazenda e publicações científicas mais recentes apontam valores próximos de 2,1 kg CO₂eq/kg FPCM. Portanto, os resultados observados no Educampo Sebrae Minas estão abaixo dessas médias globais e indicam um desempenho ambiental favorável, especialmente considerando que ainda há potencial de melhoria por produtividade, estrutura do rebanho e eficiência no uso de insumos.
