Histórias de Sucesso

Entrevista

Criatividade e crítica do humano prevalecem

Henrique de Castro fala sobre o uso da inteligência artificial (IA) nos pequenos negócios


Cristina Mota

O uso da Inteligência Artificial (IA) nos negócios, independentemente do porte, deixou de ser uma promessa de futuro para se tornar uma questão de sobrevivência e diferenciação no mercado. Feita anualmente pelo Sebrae, a Pesquisa Transformação Digital dos Pequenos Negócios 2026 aponta que mais de 50% dos pequenos negócios no Brasil já usa de alguma maneira inteligência artificial (IA) diariamente. Para falar sobre caminhos práticos, os desafios e as estratégias mais eficientes para adotar a ferramenta, a Revista Histórias de Sucesso conversou com Henrique de Castro. Ele é consultor do Sebrae Minas e CEO da New Rizon, com uma trajetória sólida, ajudando grandes empresas a inovar por meio de estratégia, engenharia e produto — acumulando soluções digitais que já impactaram mais de 10 milhões de usuários em setores exigentes, como fintechs, direito, educação e BPO. Além disso, Henrique destaca-se na vanguarda tecnológica global: foi o segundo brasileiro a conquistar certificações oficiais pela Anthropic, consolidando sua autoridade no uso avançado de modelos de linguagem de grande escala.

Crédito: Arquivo pessoal

Para um pequeno empreendedor que ainda não utiliza ferramentas de IA, qual é o primeiro passo mais seguro e de baixo custo para testar a tecnologia na operação?
O primeiro passo para um empreendedor que nunca utilizou é testar, usando materiais abertos e em IAs gratuitas, como o ChatGPT ou o Claude, por exemplo. Informações abertas muito úteis para quem está começando com IA são pesquisa de concorrente e análise de comentários do Google Meu Negócio, por exemplo.

Quais são as principais vantagens do uso da IA no dia a dia? Em quais processos o uso é recomendado e por quê?
A inteligência artificial nos permite ter um analista ao nosso lado. Vou citar um exemplo que eu uso. Eu pego os grandes escritores ou grandes nomes que são referência para mim e peço que a IA me aconselhe quando preciso de ideias ou quero fazer algo. Então, digo: se a pergunta for sobre finanças, o prompt é “fale como Damodaran”; se for sobre liderança, “fale como Ram Charan”; se for sobre tecnologia, Bill Gates; sobre marketing, Kotler. Outro exemplo, se você quer que a IA faça uma análise de como está o seu fluxo de caixa. Aí, a gente tem que tomar cuidado e usar as versões pagas e pedir que a análise seja como se a IA fosse um analista financeiro. Então, você tem muita dica de como fazer, dica de posicionamento que torna a IA muito útil.

Ao utilizar ferramentas de IA, quais são os cuidados básicos que o empreendedor deve ter com a proteção dos dados de seus clientes e as informações confidenciais do próprio negócio?
Um exemplo simples: vai subir uma planilha, retire a coluna de CNPJ. Para IA, essa informação não faz sentido e ainda é algo que tem certo risco. Sempre que possível, vale usar as versões pagas, porque nelas há a garantia de que o dado não vai ser usado de forma geral, por contrato. Na versão gratuita, ele pode ser utilizado para treinar outras versões da IA. Outro exemplo, eu uso IA para ter opinião sobre exame de saúde, mas eu tiro a minha identificação do formulário.

Existe o risco de a IA tornar o processo de trabalho “genérico”? Como o empreendedor pode garantir que a marca continue com uma voz única mesmo utilizando a automação?
Esses dias, eu escrevi um pouco sobre isso. O mundo ficaria muito chato se tudo fosse igual, repetitivo e padronizado. Então, eu acredito que a nossa humanidade nunca foi tão importante, porque a IA se torna cada vez mais replicável. O trabalho de desenvolver um software é um trabalho que requer inteligência e é replicável hoje em dia. O trabalho de fazer um design requer inteligência e é replicável pela IA. Mas o julgamento não é replicável. Saber qual software desenvolver, qual peça utilizar, nesse ponto entra a parte humana. Então, a criatividade, o nosso jeito diferente de fazer as coisas, nunca foi tão importante.

Sempre que possível, vale usar as versões pagas das IAs.

Por isso, inclusive, eu acho que o Brasil tem muito potencial na era da IA, porque o brasileiro sempre foi criativo por uma questão de sobrevivência. Agora, quando a criatividade se torna um diferencial, vai ser muito legal ver como os empreendedores brasileiros, que precisam lidar com tantos desafios diariamente, vão se sair. Quem for mais humano, tiver mais contato, gente com gente, vai ter vantagem. Recentemente, uma pesquisa de Harvard sobre profissões que aumentaram e que diminuíram na era da IA coloca vendedor de varejo como uma das que cresceram. Veja que interessante, com tanto e-commerce por aí. Mas por quê? Porque às vezes as pessoas querem a experiência de conversar com alguém, pedir uma opinião, experimentar algo e ouvir sugestões. Então, o lado mais humano, na minha opinião, cada vez mais é o que vai ser o diferencial.

Quais competências os empreendedores precisam desenvolver para serem bons “maestros” da IA? O que a máquina jamais conseguirá substituir em um pequeno negócio?

Uma pesquisa de Harvard coloca o vendedor de varejo como uma das profissões que cresceram na era da IA.

Quanto às competências dos empreendedores, além do que mencionei anteriormente, acho que é muito importante “sair da bolha”.
Para o empreendedorismo em geral, sempre foi importante experimentar coisas novas, viver experiências diferentes, porque com isso a gente tem sempre ideias diferentes. As melhores ideias que eu tive para o meu negócio foram quando eu estava ou de férias ou fazendo algum esporte. Participar de eventos de áreas diferentes da do negócio costuma gerar muitos insights.

Olhando para o futuro, qual deve ser a próxima grande revolução da IA para os pequenos negócios? O que devemos começar a estudar agora para não ficar para trás?
Eu acredito que todas as pessoas precisam ter em mente que têm de aprender a aprender. Você quer achar um charlatão em IA? Basta ver se a pessoa se diz especialista. Porque tudo muda, o tempo todo. Hoje uma IA é melhor. Provavelmente, já será outra em poucos meses, pois novas versões são lançadas e promovem mudanças. E se preocupar com isso, com qual é melhor, é desnecessário. Aprender a aprender é muito importante, porque quando muda a IA, mudam regras, e a gente tem que lidar novamente com isso. Então, ter essa visão de estar sempre estudando é essencial, ter pensamento crítico. Eu gosto muito de falar do pensamento computacional, que é basicamente você olhar para um problema e pensar nele passo a passo. Por que ressalto isso? Se você aprende a decompor o problema, em etapas, aprende a usar a IA.

Não acredito que IA vai substituir o ser humano, mas sim que seres humanos que usam IA vão substituir aqueles que não usam essas tecnologias

Vamos pegar um exemplo: imagina uma empresa em um processo seletivo, em que recebe muitos currículos. Nesse caso, a IA não vai substituir o RH inteiro, nunca. Mas a ferramenta pode fazer a primeira triagem de currículo e já ordenar pelos mais interessantes para o RH. É um passo a passo, é olhar para uma questão grande e ver como ela pode ajudar, filtrar. E a IA não vai substituir vendedor, mesmo se ele atua em um e-commerce, onde há um chatbot para fazer venda. Há uma questão a se pensar aí: posso utilizar a IA para fazer uma pesquisa e o vendedor pode usar as informações. Posso usar os áudios de um grupo no WhatsApp e pedir para a IA transcrever. Então, o ponto é saber decompor o problema, para saber onde usar a IA e onde não usar. Na minha visão, então, não acredito que IA vai substituir o ser humano, mas sim que seres humanos que usam IA vão substituir aqueles que não usam essas tecnologias.