Agricultura familiar
Cadeias produtivas fortalecidas
Histórias mostram como gestão, acesso a mercado e inovação geram renda e desenvolvimento no campo
Daniela Maia
O caminho da agricultura familiar em Minas Gerais nem sempre foi simples. Em muitas regiões, produzir significava enfrentar limitações de mercado, dificuldades técnicas e até mesmo a incerteza de não saber se o esforço no campo se transformaria em renda no fim do mês. Mas esse cenário vem mudando, com projetos para apoiar a evolução dos negócios e transformar conhecimento em resultado.
Em parceria com instituições públicas e privadas, o Sebrae Minas tem realizado iniciativas com foco na agricultura familiar que estão ampliando oportunidades, fortalecendo cadeias produtivas e, principalmente, mudando trajetórias de vida.
Um exemplo está em Belo Oriente, cidade localizada no Vale do Aço. Na comunidade quilombola Esperança, famílias estruturaram agroindústrias e passaram a fornecer alimentos para a Cenibra, uma das principais empresas da região, além de abastecer a merenda escolar por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Este foi o resultado de um trabalho conjunto entre Sebrae Minas, Cenibra, Senar, Embrapa e o poder público municipal.
O analista do Sebrae Minas Anderson Pimentel explica a dinâmica da iniciativa. “Começamos visitando, conhecendo e ouvindo os agricultores, entendendo seus objetivos e necessidades para construirmos, juntos, um plano de ação. Buscamos dar mais autonomia e fortalecer o protagonismo dos produtores”, ressalta. Foram disponibilizadas capacitações técnicas e comportamentais, orientações em gestão financeira e de marketing e vendas, criação de logomarcas, rótulos e embalagens, além da organização de processos produtivos. “Quando esses pequenos produtores passam a se ver como empresários, ganham segurança para enfrentar o mercado. Os desafios continuam, mas deixam de ser barreiras intransponíveis”, completa Anderson.
Elo no território
O negócio familiar de Cristiane Lima é um dos apoiados na comunidade. Há alguns anos, ela deixou o trabalho formal como caixa de supermercado para investir, junto com os irmãos, no plantio de frutas e na fabricação de polpas. A produção começou de forma improvisada, em um espaço cedido pela família, com uma despolpadeira simples, congeladores e um liquidificador industrial. No início, a produção era destinada às escolas do município, por meio do PNAE, além de feiras e pequenos comércios locais. Aos poucos, o negócio ganhou escala, e cada membro da família passou a ter funções bem estabelecidas: Cristiane na gestão e os irmãos nos pomares. Logo, o marido de Cristiane também integrou a operação, além da filha, que decidiu cursar Nutrição para contribuir tecnicamente para o futuro da empresa.
Crédito: Arquivo pessoal
Com apoio do Sebrae Minas, Cristiane participou de capacitações, entre elas o Empretec Rural, reorganizou processos, estruturou a gestão e reposicionou sua marca, a Gostim di Fruta, que produz polpas de maracujá, graviola, acerola, goiaba, abacaxi, manga e caju. O negócio acabou se tornando um elo dentro do território: a fábrica garante o aproveitamento da produção de outros agricultores, gera renda para diversas famílias e fortalece a economia local. Atualmente, a produção chega a 400 kg de polpas por dia.
Após um processo de preparação e adequação, Cristiane conquistou um contrato para fornecer seus produtos para a Cenibra: as polpas passaram a compor parte das cerca de 5 mil refeições servidas diariamente no refeitório da empresa. “No começo, a ideia era atender só o município. Hoje, a gente já atende outras cidades e grandes empresas. É um passo de cada vez, mas vale a pena. Quando você começa a enxergar o seu negócio como uma empresa, tudo muda. A gente passa a planejar, a pensar no futuro”, conclui a agricultora familiar.
Para a Cenibra, a parceria com a agricultura familiar gera impactos sociais muito relevantes. “Observamos o fortalecimento da agricultura familiar como atividade econômica, com geração de renda, maior autonomia dos produtores e fixação das famílias no campo. A organização coletiva, a capacitação e o acesso a um mercado seguro aumentam a autoestima dos agricultores e estimulam o desenvolvimento local”, afirma o diretor-presidente do Instituto Cenibra, Edson Valgas de Paiva. Segundo ele, trabalhar com produtores organizados traz ganhos para todos os envolvidos. “Para a empresa, significa qualidade e regularidade no fornecimento. Para as famílias, representa renda, autonomia e valorização do trabalho no campo”, conclui.
Estratégia de desenvolvimento
A transformação vivida no Quilombo Esperança faz parte de um movimento mais amplo e estratégico: a Prefeitura de Belo Oriente ampliou gradualmente a compra de alimentos da agricultura familiar até chegar a 100% da merenda escolar abastecida por produtores locais. O resultado é um círculo virtuoso, pois leva a mais produção, mais renda e mais desenvolvimento dentro do próprio território.
“Quando o município passou a comprar mais, os produtores começaram a se organizar. E nós também criamos condições: apoio com insumos, assistência técnica, incentivo à estruturação das agroindústrias”, conta o produtor rural e atual secretário municipal de Agricultura, Nardely Ramos.
Hoje, o município conta com 15 agroindústrias em funcionamento, número que deve chegar a 23 nos próximos anos. Em 2016, apenas dez famílias forneciam para a merenda escolar, com faturamento anual de cerca de R$ 140 mil. Hoje, são 120 famílias diretamente envolvidas, movimentando cerca de R$ 4,5 milhões no PNAE e mais de R$ 2 milhões no mercado privado. Ao todo, aproximadamente R$ 6 milhões circulam anualmente na zona rural de Belo Oriente.
Garimpo no passado
A 43 km de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, fica a comunidade de Maria Nunes. O local já teve no garimpo a sua principal fonte de renda. Com o declínio da atividade, vieram as dificuldades e a necessidade de reinventar o caminho. Foi assim que um grupo de mulheres começou, há mais de duas décadas, a plantar frutas como alternativa de sustento. Hoje, essa iniciativa se consolidou na Associação Agroindústria Sabor do Vale, formada por cerca de 20 agricultoras familiares que atuam na produção de frutas e fabricação de polpas artesanais.
As agricultoras construíram, com as próprias mãos, o espaço que hoje garante renda, autonomia e sustento para dezenas de famílias. “Nós mesmas ajudamos a construir a fábrica. Enquanto algumas trabalhavam na obra, outras seguiam no campo, cuidando da produção. Foi tudo com muito esforço”, lembra Vanilda Alcântara, uma das integrantes da associação.
Crédito: Obelisco Filmes
No início, as frutas eram comercializadas de porta em porta na cidade. Com o tempo, a produção de polpas abriu portas para o fornecimento ao PNAE e para o comércio local. A partir de 2023, com o apoio do programa ALI Rural, do Sebrae Minas, a associação deu um salto. “O grupo já tinha uma base produtiva importante, resultado de um trabalho consistente da Emater e de outras parcerias, além de acesso a mercados institucionais e investimentos relevantes, como uma usina fotovoltaica e um caminhão refrigerado. O Sebrae Minas entrou para aprimorar a gestão e diversificar o mix de produtos”, explica a analista da instituição Kele Vespermann.
Enquanto a Emater consolidava a base produtiva, o Sebrae Minas atuou no desenvolvimento do negócio e na ampliação do acesso ao mercado. As produtoras passaram a vender diretamente ao consumidor durante eventos estratégicos, ampliaram o fornecimento para restaurantes e bares, inseriram os produtos em comércios locais de Diamantina e estruturaram canais digitais de relacionamento e vendas. O movimento trouxe mais visibilidade para a marca, diversificou as fontes de receita e ampliou a autonomia comercial do grupo.
Crédito: Obelisco Filmes
Em poucos meses, o número de seguidores nas redes sociais teve crescimento de 287%, enquanto as vendas diretas aumentaram mais de 21%. Patrícia de Jesus Santos é filha de uma das fundadoras do grupo e integra a equipe que mantém a produção funcionando diariamente. Ela ressalta que o desenvolvimento da associação permitiu que as mulheres conquistassem algo que antes parecia distante: autonomia financeira. Ao lembrar a trajetória construída coletivamente, Patrícia se emociona: “Nem acreditamos em tanta coisa boa que aconteceu. O nosso sonho era não precisar sair da comunidade para ter nosso trabalho, nossa renda. E hoje conseguimos isso.”
Ela relata que o grupo se tornou referência para outras mulheres e comunidades rurais, que visitam a associação. E o legado continua crescendo. “Já estamos na terceira geração de mulheres atuando”, diz Patrícia, orgulhosa.
