Serviços financeiros
Sinal verde para crescer
Fampe Minas Gerais lidera no volume de crédito avalizado no país
Ana Cláudia Vieira
Os resultados de crescimento da Drogaria Madri, fundada há 13 anos em Lontra, no
Norte de Minas Gerais, vinham superando a expectativa. No entanto, quando o
proprietário Marcelo Gusmão Cardoso resolveu ampliar a operação com a abertura
de uma nova unidade e a criação de uma clínica, enfrentou um obstáculo: o acesso
a linhas de crédito que possibilitassem os investimentos.
Marcelo não é o único que se vê diante dessa dificuldade: ela está entre os maiores
entraves enfrentados por pequenos empresários. Em pesquisa realizada pelo
Sebrae em outubro de 2025, 57,6% dos entrevistados consideraram difícil o acesso
ao crédito. O percentual ainda é alto, apesar da queda de 10 pontos percentuais em
relação ao levantamento feito no mesmo mês em 2024 e de políticas públicas que
facilitam o acesso ao crédito para micro e pequenas empresas, como o programa
Acredita. Em outra pesquisa, realizada pela Federação das Indústrias do Estado de
São Paulo (Fiesp) com foco em micro e pequenas indústrias, 67,5% delas relataram
problemas no processo de solicitação de crédito.
Crédito: Arquivo pessoal
Conforme explica Débora Souza, analista do Sebrae Minas, parte dessa dificuldade se justifica pela falta de garantias que possam ser oferecidas pelos empreendedores às instituições credoras. “Na pesquisa realizada pelo Sebrae Minas, divulgada no início de março de 2026, foram identificadas quais são as principais dificuldades para os empresários acessarem crédito. E a existência de garantias está entre as três maiores dificuldades, junto com burocracia excessiva e com o CPF negativado ou com restrição,” diz.
Uma solução
No caso de Marcelo, o acesso ao crédito para a expansão dos negócios foi
viabilizado pelo Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (Fampe), do Sebrae.
Criado em junho de 1995 e prestes a fazer 31 anos, o Fampe oferece aval de até
80% em financiamentos para micro e pequenas empresas que não possuem
garantias reais necessárias para empréstimos e financiamentos. Como
contrapartida, os empreendedores pagam a taxa de Comissão de Concessão de
Aval (CCA).
“O Fampe foi um facilitador, porque nossa empresa não tinha imóveis suficientes
para dar garantia no valor do necessário à expansão. O fundo tornou possível
contratar esse crédito”, explica Marcelo. Além do financiamento de uma filial da
drogaria em Montes Claros, o empreendedor foi avalizado para um segundo
financiamento, que possibilitou a abertura de uma clínica médica, em Lontra. De
uma pequena drogaria, os negócios se transformaram em um grupo, com geração
de empregos e oportunidades para muitas pessoas. “É uma ótima oportunidade.
São oferecidas taxas de crédito abaixo do mercado, um prazo longo, com parcelas
que cabem no orçamento, o que viabilizou a expansão. Então, eu sou uma prova
viva de que o Fampe alavanca o Norte de Minas”, avalia.
Somente em 2025, foram 15.828 operações de crédito no estado que contaram com o aval do Fampe.
Conforme explica Débora Souza, Minas Gerais tem se destacado no uso do
programa para apoiar os pequenos empresários. Em 2025, o estado superou em R$
100 milhões em valor garantido o estado de São Paulo, o segundo colocado.
Para ela, o sucesso na utilização do programa se dá principalmente pela parceria
com as diferentes instituições de crédito. “Somos os primeiros colocados na
utilização do Fampe devido à proximidade do Sebrae com instituições financeiras,
como BDMG, Banco do Nordeste, Sicoob, Sicredi, Cresol e o Fundo de
Investimento Estímulo”, destaca.
Como funciona na prática?
Criado para ampliar o acesso ao crédito para micro e pequenas empresas, o Fampe
atua como um mecanismo de garantia que reduz o risco das instituições financeiras
na concessão de empréstimos. Na prática, o fundo permite que empreendedores
que não possuem garantias suficientes, como imóveis ou outros bens, possam obter
financiamento para investir ou manter suas atividades por meio do aval do fundo.
Para isso, o empreendedor interessado em obter crédito deve procurar diretamente
uma instituição financeira que opere com o fundo, como bancos públicos ou
privados e cooperativas de crédito. A análise da solicitação é feita pelo próprio
banco, que avalia fatores como capacidade de pagamento, histórico financeiro e
viabilidade do negócio. Embora não seja obrigatória a apresentação de plano de
negócios, a instituição financeira pode solicitar este e outros documentos, como o
projeto de investimento ou a proposta de financiamento.
Caso o empresário não tenha garantias suficientes para respaldar a operação, o
Fampe pode atuar como avalista de parte do financiamento. Débora Souza informa
que, de modo geral, o fundo pode garantir até 80% do valor do crédito concedido,
reduzindo significativamente o risco para a instituição financeira e facilitando a
liberação do recurso.
Existem linhas específicas que avalizam até 100% do valor, como o Fampe Emergencial e o Fampe Mulheres
Mas existem linhas específicas que avalizam até 100% do valor, como o Fampe
Emergencial e o Fampe Mulheres. Em todos os casos, a responsabilidade pelo
pagamento do empréstimo, diz a analista, é a mesma. “Se o empreendedor não
conseguir honrar o pagamento do empréstimo, o fundo cobre a parte garantida da
dívida junto à instituição financeira, dentro dos limites estabelecidos. Mas, ainda
assim, o empresário permanece responsável pelo compromisso assumido e pode
ter o nome negativado caso não quite a dívida”, ressalta.
O programa é voltado para Microempreendedor Individual (MEI), Microempresa
(ME) ou Empresa de Pequeno Porte (EPP). Já o limite da garantia varia de acordo
com o porte do negócio: atualmente, pode chegar a R$ 100 mil para MEI, R$ 400
mil para ME e R$ 700 mil para EPP.
Um parceiro de crescimento
Além do aval para empréstimos e financiamentos, o Sebrae atua no
acompanhamento dos empreendedores por meio do programa Crédito Assistido. A
iniciativa oferece orientação gerencial antes e depois da contratação do
financiamento, ajudando empresários a planejar melhor o uso do recurso e a
fortalecer a gestão do negócio. “Nosso objetivo não é apenas facilitar o acesso ao
crédito, mas garantir que empreendedores utilizem esse recurso da melhor forma
possível para desenvolver o seu negócio”, explica Débora.
O programa oferece conteúdos e serviços de consultoria, munindo empresários de
conhecimento para a melhor tomada de decisão e para a gestão do negócio em
diferentes áreas. “O Sebrae não é uma instituição financeira. Nosso papel não é
esse, mas o de promover o crédito com orientação gerencial, que é um
conhecimento que o empresário vai usar durante todo o desenvolvimento do
negócio, independentemente de continuar ou não utilizando o Fampe”.
O fundo também pode ser utilizado em diferentes tipos de financiamento, como
capital de giro — destinado à manutenção das atividades da empresa — ou
investimentos em expansão, compra de equipamentos e modernização do negócio.
Crédito para reconstruir
Além das linhas tradicionais de garantia de crédito, o Fampe pode ser acionado em
situações emergenciais, como enchentes, deslizamentos ou outros desastres
climáticos que impactem pequenos negócios. A linha foi criada no início de 2025,
após as chuvas intensas e enchentes de grande proporção que atingiram Minas
Gerais, provocando danos materiais expressivos e perdas econômicas
significativas.
A medida viabilizou o acesso ao crédito com condições extraordinárias, incluindo
100% de garantia de aval e isenção integral da CCA que é paga ao fundo,
beneficiando empreendedores de municípios oficialmente reconhecidos em situação
de calamidade ou emergência.
A aplicação do Fampe Excepcional de Calamidade alcançou oito das nove regionais
do Sebrae Minas no estado, com destaque para Rio Doce e Vale do Aço, Norte,
Jequitinhonha e Mucuri e Centro-Oeste e Sudoeste. Mais de R$ 15 milhões foram
liberados até o encerramento da vigência da medida, em 13 de agosto de 2025.
Conforme explica Débora Souza, nesses casos, o fundo funciona como avalista do
financiamento contratado pelo empreendedor junto às instituições financeiras,
permitindo que empresas afetadas tenham acesso mais rápido a recursos para
retomar as atividades.
Foi o que aconteceu com a empresa Art Pedras, em Timóteo, no Vale do Aço. Após
fortes chuvas na região, um deslizamento de terra atingiu o galpão da empresa e
causou prejuízos estimados em cerca de R$ 100 mil, com perda de máquinas,
chapas de mármore e peças já prontas para entrega. “Foi em janeiro de 2025,
quando uma chuva muito forte carregou muita terra, e o barranco caiu em cima dos
maquinários, de chapa, de peça pronta, de tudo. Ficamos todos desorientados e
preocupados.”, relembra a gerente de vendas da empresa, Mariane Luiza Martins
Sinfrônio.
Segundo ela, o acesso ao crédito emergencial foi essencial para que o negócio
continuasse funcionando. “O recurso foi uma forma de respirar naquele momento. A
gente tinha fornecedores para pagar, funcionários e precisava comprar matéria-
prima novamente para refazer pedidos que tinham sido perdidos”, relata.
Com o financiamento, a empresa conseguiu cobrir parte dos prejuízos, manter a
operação e reorganizar a produção, retomando alguns meses depois o processo de
ampliação que tinha sido interrompido pela catástrofe. “Conseguimos aumentar a
área de produção com um galpão a mais”, celebra. Para Mariane, a experiência
reforça a importância de os empreendedores buscarem informações sobre linhas de
apoio disponíveis em momentos de crise. “Às vezes, o empresário acha que não
tem saída, mas existem programas que podem ajudar a atravessar esses
momentos”, finaliza a gerente.
O FAMPE EXCEPCIONAL 2026 JÁ ESTÁ EM VIGOR E VAI ATENDER MAIS DE 100 MUNICÍPIOS INCLUÍDOS EM SITUAÇÃO DE CALAMIDADE NESTE INÍCIO DE ANO. AS 29 INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS QUE ATUAM POR MEIO DO FUNDO PODERÃO CONCEDER O CRÉDITO PARA OS PEQUENOS NEGÓCIOS NESSAS CIDADES COM A ISENÇÃO DA CCA E AVAL FAMPE PARA 100% DO VALOR CONCEDIDO.
