Retenção de riquezas
O dinheiro que fica
Ampliar a participação de pequenos negócios locais nas compras públicas gera um círculo virtuoso de emprego, renda e desenvolvimento para os municípios
Daniela Maia
Há casos de municípios que têm tudo para prosperar, mas a economia parece não
avançar na mesma velocidade desse potencial. Em muitas dessas situações, a
resposta pode estar na forma como a riqueza circula ou deixa de circular dentro do
próprio território. É nesse ponto que entra um conceito cada vez mais discutido nas
estratégias de desenvolvimento regional: a retenção de riqueza, que significa fazer
com que o dinheiro investido pelo poder público e privado circule dentro da própria
comunidade. E as compras públicas são exemplos de como isso pode ser feito.
Quando uma prefeitura prioriza que esse processo foque pequenos
empreendedores locais, ela ativa o desenvolvimento do mercado interno, ampliando
oportunidades e estimulando negócios. O movimento é quase imediato, como
aponta Maikon Freitas, analista do Sebrae Minas. “Quando uma empresa local
vende para o poder público, passa a faturar mais, contrata mais pessoas e gera
mais renda. Essas pessoas consomem mais no comércio local. Isso cria um círculo
virtuoso de desenvolvimento econômico”, afirma. Os números mostram que existe
um grande potencial para ampliar essa dinâmica em Minas. Em 2024, os municípios
mineiros movimentaram cerca de R$ 61,19 bilhões em compras públicas, valor que
cresceu 313% desde 2017. Apesar do avanço, o dinheiro ainda não permanece
integralmente nas cidades onde é investido. Do total movimentado, apenas cerca de
R$ 8 bilhões foram contratados com pequenos negócios locais.
Outro dado revela uma oportunidade adicional: a quantidade de empresas que
vendem para as prefeituras aumentou apenas cerca de 15% no mesmo período. Ou
seja, há espaço para que mais pequenos negócios participem desse mercado. Além
disso, estudos feitos pelo Sebrae Minas indicam que se 45% das contratações
municipais fossem feitas com pequenas empresas locais, seria possível reter cerca
de R$ 19 bilhões adicionais por ano nas economias municipais.
Estratégia de desenvolvimento
Para ajudar os municípios, o Sebrae Minas desenvolve o programa de Compras
Públicas Municipais, orientando prefeituras sobre como tornar seus processos de
contratação mais acessíveis aos pequenos negócios, cooperativas e agricultores
familiares. A metodologia atua em diferentes etapas do processo, entre elas a
capacitação de gestores públicos, a estruturação de editais mais acessíveis e o
estímulo à participação de empresas locais nas licitações. “De um lado,
capacitamos as equipes das prefeituras para que façam compras locais com
segurança jurídica. Do outro, formamos empresários e agricultores para que enten
dam como participar das licitações e vender para o poder público”, explica Maikon.
O Sebrae Minas estruturou, apenas no ano de 2026, 101 turmas do programa em
29 cidades. A iniciativa ganhou ainda mais agilidade com a implantação de uma
prova online para seleção de consultores e a criação de uma cartilha de análise
territorial, que orienta a aplicação das melhores práticas de compras públicas com
base nas características econômicas de cada município.
Para Maikon, o acesso ao mercado público pode representar uma mudança
profunda. “Muitas empresas passam a ter mais autonomia financeira. Antes,
trabalhavam apenas para pagar as contas. Com novos contratos, conseguem
investir, crescer e gerar lucro. Isso traz também um sentimento de propósito e de
empoderamento para os empreendedores”, completa o analista.
O exemplo de Vazante
Localizado no Noroeste de Minas Gerais, o município de Vazante tem na
agropecuária uma de suas principais bases econômicas e começou a olhar para as
compras públicas como uma oportunidade concreta de fortalecer a economia local.
Em 2025, a prefeitura implementou o programa de Compras Públicas. Além da
parceria com o Sebrae Minas, a iniciativa conta com o apoio de entidades como
Emater, CDL, contadores e representantes do comércio local.
Para Cláudio Alves Pereira de Oliveira, secretário de Desenvolvimento Econômico e
Agricultura de Vazante, a iniciativa trouxe uma nova percepção sobre o potencial de
desenvolvimento do município. “Quando começamos, muitas pessoas não tinham
noção do volume de compras da prefeitura. A partir do momento em que isso ficou
claro, percebemos que existe uma grande oportunidade de alavancar a economia
local e manter mais recursos circulando dentro do município”, afirma. Vânia
Guimarães, diretora de Desenvolvimento Econômico de Vazante, complementa que
percebe uma mudança cultural: “Quando as pessoas percebem o potencial das
compras públicas, passam a enxergar novas oportunidades”.
Crédito: Obelisco Filmes
Entre as ações, a prefeitura realizou o primeiro chamamento público da agricultura
familiar após a capacitação promovida pelo programa. O agricultor Nélio Vaz da
Silva participou. Ele conta que há mais de 30 anos produzia, junto com o irmão,
arroz, feijão e milho, comercializados para a indústria. “Quando ouvi falar das
compras públicas, participei do treinamento e vi que valia a pena. Achei que seria
muito burocrático, mas foi muito mais simples do que imaginava. A documentação é
tranquila e a equipe do Sebrae Minas ajudou muito”, conta.
Com o novo mercado, Nélio estima que o faturamento deve crescer cerca de 20%.
Mais do que o ganho financeiro, a oportunidade trouxe também um sentimento de
realização pessoal. “É uma satisfação muito grande saber que o arroz que eu
produzo vai alimentar as crianças das escolas da minha cidade. É um produto
natural, sem química. Eu mesmo preparo, seco, limpo, embalo e faço a entrega”,
afirma.
Crédito: Obelisco Filmes
Nova etapa
Neste ano, o programa de Compras Públicas entra em uma nova fase de expansão, com a implementação das ações em dois importantes polos regionais de Minas Gerais: Uberlândia e Montes Claros. O marco representa um movimento relevante de ganho de escala, pois, em cidades de maior porte, o potencial transformador é ainda mais significativo, com o volume de compras públicas movimentando cadeias produtivas inteiras.
Movimentação financeira para fortalecer a economia local
Além de incentivar a participação de pequenas empresas nas compras públicas, o
Sebrae Minas tem atuado para ampliar a circulação de recursos dentro dos próprios
territórios por meio do programa Movimentação Financeira. A iniciativa estimula o
diálogo entre gestores públicos, instituições financeiras e lideranças locais em prol
de estratégias capazes de manter os recursos financeiros de entes públicos
aplicados e circulando na própria região. Entre as ações realizadas está o workshop
Retenção de Riquezas no Território, já promovido em mais de 70 municípios.
Os resultados desse movimento começam a aparecer. “Quando iniciamos o
workshop, em dezembro de 2020, Minas não movimentava mais do que R$ 200
milhões com entes públicos se relacionando com instituições financeiras locais. Em
dezembro de 2025, o valor ultrapassou R$ 1,5 bilhão, o que representa cerca de um
quarto de toda a movimentação registrada no Brasil”, explica Pollyana Marques,
analista do Sebrae Minas. De acordo com ela, o avanço coloca Minas Gerais em
posição de destaque no cenário nacional.
Dando continuidade ao projeto, outra frente de atuação é a Consultoria de Retenção
e Geração de Riquezas, que orienta gestores públicos sobre como direcionar
recursos para instituições financeiras locais que fomentem o desenvolvimento
regional. O município de Formiga sediou o projeto-piloto em 2025, identificando um
potencial de cerca de R$ 14 milhões que poderão ser reinvestidos no próprio
território e fortalecer os pequenos negócios.
Faça parte do movimento
Prefeituras interessadas nas soluções podem procurar as unidades do Sebrae Minas. Clique aqui.
