Histórias de Sucesso

Turismo

Experiências ancestrais

Quilombo São Domingos, no Noroeste do estado, inaugura nova frente de atuação do Sebrae Minas: o turismo de base comunitária


Alexandre Magalhães

Situado em um extenso vale, a quatro quilômetros do centro histórico de Paracatu, no Noroeste mineiro, o Quilombo São Domingos cultiva tradições ancestrais há mais de três séculos. E, a partir de agora, essa comunidade remanescente de escravizados tem tudo para transformar a realidade dos descendentes de seus fundadores por meio de um trabalho que busca valorizar sua história e preservar suas formas de viver.

Primeiro produto de afroturismo desenvolvido pelo Sebrae Minas no estado, em conjunto com a própria comunidade e a prefeitura, o projeto de turismo de base comunitária lançou, no dia 23 de outubro, um Catálogo de Experiências Turísticas que valoriza a memória, a cultura e o modo de viver dos quilombolas do Noroeste de Minas Gerais. Um território de raízes fortes e vivências autênticas.

A iniciativa é parte das ações do Check-in Turismo, abordagem do Sebrae Minas que busca estruturar experiências e produtos turísticos em todo o estado, por meio do mapeamento de atrativos e da oferta, além de qualificação profissional e dos pequenos negócios. O objetivo é gerar trabalho e riqueza para os territórios alcançados.

Muita história

A Casa Museu foi construída há 76 anos
Crédito: Dante Bragança

O surgimento do quilombo está associado ao Ciclo do Ouro, nos primeiros anos do século 18. Naquele período, as atividades levaram à região um grupo de bandeirantes, acompanhados de escravizados de origem africana, que ali permaneceram por algum tempo, até os exploradores decidirem seguir viagem. Os negros, por sua vez, permaneceram no local, construindo suas vidas e tradições.

A denominação do povoado foi dada tempos depois, quando uma doença contagiosa se espalhou entre os moradores e um deles, com esperança de vê-la erradicada, teve a ideia de fazer uma promessa a São Domingos – santo da devoção de um sacerdote de mesmo nome, que frequentava o quilombo. Veio a cura, e São Domingos passou a nomear, inclusive, o córrego que divide o território.

O São Domingos, a propósito, não é o único quilombo existente em Paracatu, que abriga, ao todo, cinco comunidades quilombolas certificadas, de acordo com o Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Compir). O São Domingos começou a despertar para a possibilidade de se tornar destino turístico em 2009, ano em que o quilombo passou a receber pessoas interessadas em conhecer a Fábrica de Biscoitos Ouro da Roça e a Casa Museu – ambas dedicadas à preservação de suas memórias e à geração de trabalho e renda para seus moradores.

Datam também desse período a visita ao quilombo de pesquisadores ligados ao Instituto Arqueológico Brasileiro e a descoberta de um sítio arqueológico no território. “A partir daquele acontecimento, a comunidade despertou para o próprio potencial e começou a sonhar com um turismo de base comunitária”, conta o analista de sistemas Romário Moreira da Silva, um dos atuais anfitriões do roteiro de experiências do São Domingos e guia de turismo local, que decidiu abrir mão do antigo emprego para dedicar-se exclusivamente ao afroturismo.

Trabalho e renda

Romário nasceu no Quilombo São Domingos
Crédito: Dante Bragança

Filho de pai e mãe quilombolas, nascido no São Domingos, Romário conta que o desejo de preservar as tradições ali guardadas e gerar oportunidades de trabalho e renda para a comunidade, sobretudo para os mais jovens, fez com que um grupo de pessoas elaborasse um projeto turístico para o quilombo e o levasse até o Sebrae Minas. “De fato, a demanda partiu da própria comunidade e deu origem ao primeiro produto de afroturismo apoiado pelo Sebrae em Minas Gerais”, reforça a analista do Sebrae Minas Patrícia Rezende, que, desde o início, acompanha de perto a execução do projeto.

Segundo ela, com o apoio da Associação Quilombola do São Domingos, foi criado um coletivo composto pelos atuais anfitriões e outros moradores, para que fossem escolhidas as vivências que fariam parte de um roteiro a ser disponibilizado aos visitantes. O passo seguinte foi validar cada uma delas por meio de testes. Na sequência, partiu-se para a elaboração do catálogo, a precificação e a divulgação das experiências. “Tudo foi feito de modo a dar voz à comunidade, para que ela percebesse a riqueza que tinha em mãos e as alternativas de que dispunha para gerar oportunidades para si própria”, diz a analista.

Parceira de primeira hora do projeto, a Secretaria de Turismo de Paracatu, que já auxiliava o São Domingos a levar adiante outras ações, enxergou no projeto não só “um instrumento de reparação histórica, como também de fortalecimento comunitário e valorização da identidade preta paracatuense”, afirma o secretário Igor Diniz. “O Sebrae é uma das instituições que mais compreendem a força do território, o valor da cultura como ativo econômico e o poder transformador do empreendedorismo. E o projeto amplia nosso portfólio turístico ao incorporar uma dimensão essencial da nossa formação cultural: a matriz afro-brasileira. Isso fortalece nossa identidade como destino histórico, diverso e plural e posiciona a cidade na rota do turismo cultural, que tem efeito multiplicador sobre outros setores”, acrescenta.

Para Romário, o apoio do Sebrae possibilitou a realização de um sonho: a valorização de uma cultura e a abertura de portas para a fixação dos jovens quilombolas em seu local de origem, até como forma de preservá-lo. “A consolidação dos laços de vizinhança e de solidariedade é outro fruto importantíssimo do projeto”, diz.

Presidente da Associação Quilombola do São Domingos há 15 anos, Irene dos Reis de Oliveira, que ajudou a fundar e deu o nome à fábrica de biscoitos, comemora a relevância que o projeto conferiu ao quilombo e à ancestralidade ali preservada. “Somos uma comunidade retirada, e o Sebrae deu visibilidade aos nossos saberes”, conclui.

Irene e Irani apresentam a tradição das antigas quitandas
Crédito: Dante Bragança

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