Cooperação
Capital mineira do biscoito
Empresários de São Tiago unem forças e multiplicam resultados
Thaís Nascimento
No coração do Campo das Vertentes, a 200 km de Belo Horizonte, São Tiago é reconhecida por uma tradição que atravessa gerações: a produção dos biscoitos, que há séculos faz parte do dia a dia da cidade. Com pouco mais de 11,5 mil habitantes e 78 fábricas em atividade, o município transformou uma prática familiar em oportunidade econômica. São cerca de 500 toneladas produzidas diariamente, gerando cerca de 3 mil empregos diretos e indiretos, com movimentação mensal de cerca de R$ 15 milhões em vendas – 51% da renda gerada no município.
Conhecida como a “Terra do Café com Biscoito”, São Tiago nasceu da hospitalidade. No século XVIII, no início de sua ocupação, os moradores montavam mesas fartas de café com biscoitos de fubá e polvilho para receber os tropeiros. As receitas atravessaram gerações, preservando o sabor da memória e do acolhimento do povo. Com o tempo, esse costume ultrapassou a porta das casas e ganhou festas, celebrações e um lugar no roteiro dos viajantes.
A Indicação Geográfica é o registro legal concedido pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), que identifica produtos ou serviços cujas qualidades, características ou reputação estejam diretamente ligadas à sua origem geográfica.
Como forma de agregar valor à tradição, na década de 1990 surgiram as primeiras fábricas de biscoito, profissionalizando um saber que já era patrimônio. Já no ano de 1999 nasceu a Festa Café com Biscoito, que, em setembro, atrai turistas de todo o país. O reconhecimento oficial veio em 2013, com a Indicação Geográfica para os biscoitos de São Tiago, tornando o território único no mundo por esse título.
Entretanto, a pandemia da Covid-19 e o impacto do dólar sobre o preço do trigo exigiram união e criatividade das fábricas. “O aumento dos custos impactou em cheio o setor, e isso motivou os empresários de São Tiago a se unirem em busca de soluções”, lembra o analista do Sebrae Minas Luiz Paulo Rezende. E foi justamente desse espírito coletivo que surgiu a Central de Negócios Fortmais, fortalecendo o setor e abrindo novos caminhos para perpetuar a tradição dos biscoitos em São Tiago.
União por resultados
Criada em 2020, a Central de Negócios Fortmais é formada por dez fábricas, a maioria de pequeno porte. Com a união na Central, as empresas economizam, atualmente, cerca de R$ 25 mil na compra conjunta de insumos. “O Sebrae veio com uma quebra de paradigmas e mudança de cultura para o território. Você não precisa enxergar o próximo como seu concorrente, mas como aliado. As dez indústrias, juntas, podem fazer algo grandioso e produzir altos volumes”, afirma Narayana Resende, diretora da Fortmais e sócia da Biscuits Mineirinho, participante da Central.
Crédito: Dante Bragança
Entre as ações realizadas pelo Sebrae Minas com o grupo estão uma análise robusta de viabilidade econômica e tributária das empresas, que resultou na implantação de uma fábrica da Central em 2024; a realização de consultorias em tributação; o desenvolvimento de novos produtos, que estão sendo fornecidos para outras empresas por meio da marca própria da Central, a Santimais; e a melhoria do layout produtivo,como preparação para uma futura expansão industrial. Além disso, foi promovida, em 2024, uma missão técnica à fábrica da Marilan e ao Senai Marília, em São Paulo, polo que é referência nacional na fabricação de chocolates e biscoitos.
Atualmente, a Fortmais conta com 24 colaboradores, produz cerca de 12 toneladas e fatura, em média, R$ 7 milhões ao ano. “Digo que estamos à frente do mercado. Depois da Central, temos acompanhamento e mais cautela nas decisões, compartilhamos ideias e experiências. Hoje, a Central representa o apoio que nós, sócios, temos uns nos outros”, afirma Narayana.
Tradição preservada
Crédito: Dante Bragança
A prova viva do sucesso da Fortmais é como ela transformou os empreendedores da região, a exemplo de Eduardo Parreiras, CEO da Biscoito Rosa de Minas. A empresa foi criada há 25 anos pela sogra de Eduardo, Rosilda Resende Santos, carinhosamente conhecida como “Dona Rosa”, que trabalhou por anos em uma fábrica da região e depois passou a produzir seus biscoitos em casa. À medida que as encomendas aumentavam, a família se juntava ao negócio, e a cozinha se transformou em uma pequena indústria.
Eduardo trabalhava em uma empresa de laticínios quando decidiu dar um novo rumo à própria trajetória e ao empreendimento. A participação da empresa na Central fortaleceu ainda mais a jornada da família, por meio da união e cooperação. “Tudo que vamos negociar hoje é em conjunto. Se algum empresário está com dificuldade na produção, o outro ajuda. Hoje, não nos enxergamos como concorrentes, mas como parceiros”, afirma Eduardo.
A Biscoito Rosa de Minas mantém 35 colaboradores e leva seus produtos para diversas regiões do país. O empresário conta que, agora, o foco é seguir aprimorando processos para atender cada vez mais mercados. Outro exemplo de impacto positivo da cooperação no setor é o da proprietária e gerente do Biscoitos Tia Lena, Juraci Oliveira. O negócio começou de forma simples, dentro da casa de sua mãe, em 1999, para atender o comércio da cidade. Com o crescimento da demanda e o surgimento de novas oportunidades, ela e a irmã, Silvânia Oliveira, também sócia da empresa, passaram a atuar sistematicamente, para ganhar escala. O que era uma venda pontual para a vizinhança se expandiu para outros municípios e, depois, para diferentes estados, impulsionando investimentos em estrutura e profissionalização.
Crédito: Dante Bragança
A entrada da empresa na Fortmais pavimentou um novo ciclo de crescimento, que permitiu o aprimoramento do trabalho em conjunto com outros empreendedores. “Com a ajuda do Sebrae, nós, sócios da Fortmais, estamos sempre fazendo cursos e participando de feiras. Hoje, por meio da Central, conseguimos fazer compras em conjunto com melhores preços e estamos mais fortalecidos.” Atualmente, a Biscoitos tem 23 empregados, fornece para estados como São Paulo e Rio de Janeiro e tem pretensões de, no futuro, investir em mecanização, como forma de solucionar o desafio da mão de obra.
Expansão
A Central Fortmais está em movimento de expansão, e entre as ações estão estudos para a abertura de mais uma fábrica, que ampliará a capacidade atual de produção. Além disso, a Central criou ao longo de 2025 a marca própria Santimais, como forma de se tornar mais estratégica. “Começamos a conhecer o universo de marca própria e tivemos algumas demandas de empresas grandes, que inserimos no processo para dar vazão rápida ao nosso produto”, afirma a diretora da Central.
No final de 2025, o grupo fechou parcerias estratégicas para fornecimento de biscoitos para duas grandes marcas, que já firmaram contratos. Já em 2026, o foco é aprimorar estudos para o lançamento de produtos da marca própria para o público geral. A estratégia se soma ao compromisso de fortalecer a Santimais, uma referência na região e peça central do portfólio.
