Desenvolvimento Social
DA NECESSIDADE À OPORTUNIDADE
Programa Comunidade Empreendedora apoia pequenos negócios em vilas e favelas de cinco municípios mineiros
Alexandre Magalhães
De acordo com o Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), naquele ano o Brasil tinha 12.348 favelas e comunidades urbanas, distribuídas em 656 municípios. Os habitantes desses locais chegavam a 16,4 milhões – 8,1% dos brasileiros –, em geral, menos capacitados e, portanto, em condição desfavorável na disputa por ocupações e salários. Não por acaso, segundo levantamento do Data Favela, instituto de pesquisa que há 12 anos produz dados estatísticos relativos a esses espaços, seis em cada dez moradores de vilas e favelas que se dedicam ao empreendedorismo o fazem por necessidade – os quatro restantes empreendem por oportunidade, motivados, sobretudo, pela elevada densidade populacional que caracteriza tais áreas.
700 empreendedores de comunidades de cinco municípios receberam orientação
Para contribuir para o fortalecimento dos negócios ali existentes, gerar novas oportunidades de emprego e renda e transformar realidades individuais e coletivas, o Sebrae Minas pôs em prática, há pouco mais de três anos, o Programa Comunidade Empreendedora, que assiste pessoas que por algum motivo decidiram montar um negócio. Logo, porém, ficou claro que, para dar certo, a iniciativa demandaria parcerias. A partir daí, foi estruturada uma rede de apoio com a participação de atores das próprias localidades e do poder público. E, dos mais de 9 mil negócios formais e informais mapeados em cinco municípios mineiros, 700 já receberam orientação por meio de consultoria especializada disponibilizada pelo Sebrae.
“Há muita potência nos territórios, boas ideias e força de vontade, mas poucas oportunidades. São pessoas empreendedoras por natureza, mas em geral faltam a elas noções de organização, gestão financeira e de clientes. São essas lacunas que o Comunidade Empreendedora busca preencher”, diz a analista do Sebrae Minas Michelle Noronha, coordenadora estadual do programa.
Combate à desigualdade
No segundo trimestre de 2025, o Índice de Gini – medidor de desigualdade utilizado pelo IBGE, que varia de 1 a 10 (grau máximo) – alcançou 0,514 no Brasil. Comparado ao ápice registrado durante a pandemia de Covid-19, houve um recuo. No entanto, ainda é expressiva a distância que separa remediados e pobres no país. De outro lado, moradores de comunidades urbanas compõem a parcela da população com maior potencial para encurtar esse intervalo.
Exatamente por isso, o Sebrae Minas estruturou sua atuação em áreas desfavorecidas economicamente com o Comunidade Empreendedora. O primeiro passo foi dado em 2023, ano em que agentes a serviço da instituição e servidores da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese) iniciaram um mapeamento de negócios existentes em vilas e favelas de Belo Horizonte, Betim, Divinópolis e Montes Claros – no ano seguinte, Ribeirão das Neves foi adicionada ao rol de municípios. O objetivo era saber quem eram os empreendedores e em que segmentos atuavam.
Em 2024, a metodologia foi reformulada e o mapeamento incluiu a a apresentação de uma relação de ideias e pequenas ações destinadas a operar uma primeira transformação nos negócios, tendo em vista a necessidade de oferecer uma possibilidade de ganho imediato ao público-alvo do programa. E, como o nível de desconfiança com que o programa ainda era visto poderia ameaçar a continuidade das ações, agentes identificados nos territórios visitados – eles próprios, empreendedores – passaram a ser capacitados para acompanhar os demais negócios, de modo a fortalecer uma conexão real entre o Comunidade Empreendedora e aqueles que a iniciativa pretendia alcançar.
Em paralelo, com base nas indicações fornecidas pelo mapeamento e no conhecimento das lideranças comunitárias, a Sedese passou a ofertar cursos técnicos profissionalizantes (introdução a serviços de cozinha, beleza, marketing digital e estilo pessoal, entre outros) adaptados às necessidades de cada localidade.
Trilha continuada
Já a partir de fevereiro de 2025, os empreendedores (formais e informais), selecionados por meio do programa, passaram a ter acesso a uma trilha continuada oferecida pelo Sebrae Minas, composta por quatro encontros individuais de duas horas cada um, destinados a tratar de quatro temas principais: comportamento empreendedor, vendas, finanças e comunicação.
Para isso, os agentes foram treinados em uma metodologia específica para o programa, que traz importantes conceitos de gestão de negócio em uma linguagem adaptada à realidade dos empreendimentos da periferia. Com ela, foi possível identificar não apenas forças e fraquezas, mas diferenciais, clientes ideais, gastos (fixos, variáveis e sazonais) e canais de divulgação adequados, entre outras informações essenciais à elaboração de um raio-x o mais aproximado possível da realidade e das perspectivas de cada negócio. Além disso, em algumas comunidades, o Sebrae Minas passou a promover oficinas temáticas adaptadas às realidades locais – em Belo Horizonte, por exemplo, dada a quantidade expressiva de negócios na área de beleza, diversas ações segmentadas foram realizadas, algumas delas na sede do próprio Sebrae, para apresentar a instituição aos empreendedores e mostrar que todos eram bem- vindos naquele espaço.
O esforço surtiu efeito. Na última medição realizada pelos agentes, ao serem questionados se indicariam o Comunidade Empreendedora a um familiar ou conhecido, 86,5% dos participantes consultados responderam sim – um indicativo importante de sucesso, embora, de acordo com a gestora do programa, todos estejam cientes de que os resultados ainda demandarão tempo. “O mais importante, no entanto, é a compreensão que temos atualmente da importância das comunidades para o desenvolvimento territorial e econômico. Se tratada com um olhar atento, a periferia pode contribuir muito para a geração de renda e riqueza. O que as pessoas precisam é de incentivo, algo que continuaremos a levar a elas em 2026”, antecipa Michelle.
Grande valia
Beatriz dos Reis Neto Silva é uma das empreendedoras capacitadas que responderam à consulta do Sebrae Minas. “Já recomendei o programa para várias conhecidas, por ter sido de grande valia para mim”, diz. Em 2018, precisando manter-se mais próxima de casa e dos dois filhos, ela deixou o emprego formal para vender produtos cosméticos e peças íntimas – que, pouco tempo depois, passou, inclusive, a fabricar. A chegada da pandemia, porém, derrubou não só suas vendas, mas sua autoestima. “Fiquei muito desanimada”, conta.
Crédito: Solon Queiroz
Depois de vender o maquinário da Betel Confecções, na qual também produzia roupas de cama e peças para cozinha, Beatriz não demorou a se perguntar se valia a pena seguir como autônoma. Até se deparar com uma chamada do Comunidade Empreendedora no status de uma amiga em uma rede social. “Procurei saber do que se tratava e, alguns meses depois, recebi uma agente a serviço do Sebrae, que me devolveu a confiança de que precisava para seguir adiante”, diz a moradora do bairro Vila Atlântida, em Montes Claros. Nos encontros quinzenais que se sucederam, Beatriz aprendeu a controlar receitas e despesas e a mapear seus clientes. E não demorou a se surpreender com o volume de vendas e o faturamento alcançado. “Só aí tive noção do quanto vendia. E minha renda dobrou em poucos meses”, diz. Para isso, contribuiu uma receita cuja ideia surgiu ao longo do acompanhamento: bolo de pote. “Já na primeira fornada, vendi tudo. Fiz a segunda e, mais uma vez, não sobrou nenhum”, completa. O passo seguinte foi cadastrar o serviço na plataforma Google Meu Negócio – e os contatos telefônicos e as vendas se multiplicaram. E o bolo de pote foi definitivamente incorporado ao negócio.
Valeu a pena
Moradora de Vila das Roseiras, em Divinópolis, Flávia Aparecida Gomide trilhou um caminho parecido. Há pouco mais de dois anos, ela também pediu demissão para dedicar-se às vendas. A princípio, seu estoque era composto de peças de enxoval, presentes e utilidades domésticas. No entanto, a falta de controle sobre receitas e despesas e a maneira informal como o negócio era tratado por pouco não a fizeram abandonar a ideia.
Crédito: Dante Bragança
Até que, no final de 2024, Flávia foi apresentada ao Comunidade Empreendedora por uma líder comunitária do bairro onde mora, o que possibilitou a ela ter acesso a uma série de orientações. “A partir daí, passei a cadastrar meus clientes e emitir notas promissórias nas vendas a prazo, para afastar o risco de inadimplência; solicitar entrada ao vender parcelado, para girar o estoque; e a implementar um controle sistemático de ganhos e gastos”, conta.
A adoção desses mecanismos de controle fez com que a empreendedora recuperasse a confiança na atividade. “Eu me abri para as mudanças sugeridas e passei a cuidar do negócio com muito mais disciplina”, emenda. Os bons resultados alcançados a fizeram inaugurar, em setembro deste ano, um espaço em seu endereço dedicado exclusivamente à clientela, para ter mais conforto e privacidade. “Posso dizer que, graças ao Sebrae, perdi o medo e passei a vender muito mais. Valeu a pena”, diz.
Transformação
Uma das responsáveis pela implantação do programa na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a analista do Sebrae Minas Delaine Cordeiro conta que mais de 5 mil empreendimentos foram identificados pelos agentes de transformação contratados pelo Sebrae para fazer os diagnósticos em vilas e favelas da capital, além de Ribeirão das Neves e Betim. Destes, 360 já foram capacitados diretamente nas jornadas empreendedoras oferecidas pelo programa. Segundo ela, muito além do acesso a informações essenciais ao sucesso dos negócios, o programa tem sido fundamental para que as pessoas se reconheçam como empreendedoras e geradoras de renda para suas famílias e as comunidades a que pertencem. “Entre os diversos resultados alcançados, a melhoria das condições de vida das famílias e o ganho de autoestima são, sem dúvida, os aspectos mais expressivos”, diz.
Crédito: Arquivo pessoal
Layra Vitória Sousa Silva foi uma das participantes das oficinas realizadas no Aglomerado da Serra, onde reside, na capital mineira. Ela conta que, aos 12 anos, se interessou em aprender técnicas de maquiagem e, há pouco mais de dois, fez do antigo hobby uma profissão.
No começo, contudo, faltavam a ela noções de gerenciamento e relacionamento com os clientes. Ao tomar conhecimento do Comunidade Empreendedora, Layra se interessou em participar das oficinas e, desde então, tem vivido uma transformação. “Foi muito importante para mim, principalmente do ponto de vista financeiro e de como lidar com a clientela”, relata. Antes, também por meio do Sebrae Minas, ela havia participado de outra capacitação, em mídias digitais.
Hoje, a empreendedora presta serviços a um instituto de beleza situado no Aglomerado, mas sua meta é ter o próprio estúdio e vender maquiagem nacional e importada. “Estou confiante de que, em breve, realizarei esse sonho”, conclui.
Conteúdos no Sebrae Play
Ainda como forma de contribuir com a capacitação dos interessados em beneficiar-se do Comunidade Empreendedora, o Sebrae Minas disponibiliza as séries “Quero desenvolver meu lado empreendedor” e “Para mandar bem na hora de empreender”. Segundo Michelle Noronha, “são conteúdos digitais que dialogam tanto com quem pretende ter um negócio quanto com aquele que já possui o seu, por meio de uma linguagem muito próxima da realidade de quem vive em vilas e favelas.” As aulas podem ser assistidas gratuitamente, a qualquer tempo, por meio da plataforma Sebrae Play.
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Quero desenvolver o meu lado empreendedor
Para mandar bem na hora de empreender
