Inovação
Território da tecnologia
Metodologia do Sebrae transforma o ViçosaTec, na Zona da Mata Mineira, em um dos principais ecossistemas de inovação do país
Lucas Alvarenga
Na navegação, a opção por uma hélice de três ou quatro pás determina o desempenho do barco. Enquanto o modelo de três pás oferece menor resistência e consumo de combustível, o outro proporciona melhor arranque e estabilidade. Assim como uma embarcação de quatro hélices, em busca de mais equilíbrio, o Ecossistema de Inovação de Viçosa (ViçosaTec), na Zona da Mata Mineira, incorporou um novo pilar ao seu modelo de governança para unir a sociedade civil a universidade, governo e empresas, transformando a cidade em um polo de tecnologia.
Fundado há 30 anos, o ViçosaTec mantém mais de 130 empresas de base tecnológica ativas, 1,5 mil empregos qualificados e R$ 300 milhões de faturamento mensal. Os números reforçam o potencial do território, impulsionado pelo programa Ecossistemas Locais de Inovação (ELI), do Sebrae.
Iniciada em 2020, a metodologia promove um ambiente favorável ao surgimento e fortalecimento de empresas inovadoras nos ecossistemas do estado, por meio do mapeamento minucioso dos potenciais regionais. A abordagem do programa analisa seis dimensões estratégicas para mensurar a maturidade local e implementar planos de intervenção customizados. “O ELI avalia a governança, os ambientes de inovação, o capital, as políticas públicas, os programas e as Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs) para que as ações sejam adequadas à realidade do município e valorizem as vocações, competências e ativos existentes”, pontua a analista do Sebrae Minas Reginamaria Loures.
Ferramenta estratégica de diagnóstico, a estruturação, o ELI impulsionou o ViçosaTec a um estágio avançado de maturidade. “A metodologia contribuiu para organizar agendas comuns, conectar iniciativas isoladas, evitar o sombreamento de ações e otimizar esforços. O que antes funcionava de forma fragmentada ganhou articulação em rede”, explica Regina.
A governança estruturada no modelo de quatro hélices permitiu a Viçosa se destacar no cenário nacional. Em março deste ano, o ViçosaTec se tornou um dos 59 indicados ao 9º Prêmio Nacional de Inovação (PNI), figurando entre os três finalistas na categoria “Ecossistemas de Médio Porte”. A premiação destaca soluções que impulsionam a competitividade dos negócios e o desenvolvimento socioeconômico do Brasil. “A diversidade de atores locais e a capacidade de cooperação multissetorial foram os grandes trunfos dessa conquista”, observa a analista.
Cultura da conexão
Desde que chegou a Viçosa, em 2017, a curitibana Fernanda Oliveira se encantou com a vocação empreendedora do município. Não por acaso, a comunicóloga construiu uma longa jornada de inovação na cidade: primeiro como diretora da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) e presidente da CDL Jovem, depois como agente do programa ELI. “O diferencial de Viçosa foi a criação de uma cultura de encontros periódicos, superando vaidades em favor da agenda comum”, avalia ela, atualmente gestora-executiva do ViçosaTec e chefe do Departamento Municipal de Gestão Simplificada.
Também apaixonado por inovação, Eduardo Souza era programador autodidata antes de se tornar cientista da computação pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). CEO e sócio-diretor da Oriontec desde 2002, ele superou a queda de receitas e a saída de colaboradores de sua empresa com o apoio do Sebrae Minas. “Durante a pandemia, participei do Empretec para rever metas e comportamentos na Oriontec. Nos últimos dois anos, atingimos um resultado operacional líquido cinco vezes maior do que a média dos três anos anteriores.”
Crédito: Obelisco Filmes
Especialista em automação comercial, a Oriontec desenvolve sistemas de gestão empresarial, desde 1993. A maturidade do negócio gerou resultados práticos, como a criação de uma plataforma para análise de dados estratégicos com BI, a Marketmine, e a spin-off Cont.IA, voltada a soluções contábeis com inteligência artificial. “Quando a academia forma talentos, o mercado transforma o conhecimento em soluções e empregos, o poder público cria condições favoráveis e a sociedade civil articula conexões, tudo funciona”, salienta o CEO.
Pesquisas transformadas em soluções
Na fronteira da biotecnologia, a Microbiota Brasil atua no diagnóstico de doenças em plantas, bioinsumos, ensaios de eficácia e registro de produtos no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Idealizada pela engenheira agrônoma e doutora em Fitopatologia pela UFV Thalita Suelen Monteiro, a empresa de base científica (deep tech) transformou pesquisas em soluções de mercado. “Empreender me exigiu novas competências em gestão, estratégia, liderança e negócios. E foi justamente o ViçosaTec que me proporcionou esse aprendizado”, revela Thalita.
Fruto do Laboratório de Ideação, do Parque Tecnológico de Viçosa (tecnoPARQ), a Microbiota sempre prezou pela excelência técnica, mas precisava de um salto comercial. “A consultoria de vendas do Sebrae ensinou nossa equipe acadêmica a estruturar processos comerciais, traduzir o valor da ciência em negócios e fechar contratos de alto valor”, garante Thalita.
Crédito: Obelisco Filmes
Não à toa, em cinco anos, a Microbiota já atende a clientes nacionais e internacionais, mantendo produtos biológicos próprios em fase avançada de registro e gerando empregos qualificados na região. Segundo Fernanda Oliveira, nos próximos cinco a dez anos, o ViçosaTec planeja transformar a inovação no principal motor de desenvolvimento socioeconômico da região. A meta inclui a expansão física do tecnoPARQ, que abriga mais de 40 startups e atrai centros de pesquisa e desenvolvimento (P&D), além da atração de empresas-âncora e da retenção de empregos de alta qualificação. “O sucesso de Viçosa comprova como a inovação descentralizada e o apoio de atores, como o Sebrae, podem gerar renda e legado para todo o território”, arremata.
Referência em inovação tecnológica no Sul de Minas, o HardTech Innovation 2026 reuniu startups, empresas, universidades, investidores e especialistas em Itajubá para debater tendências e estimular novos negócios. A edição consolidou o ecossistema Itajubá HardTech ao receber mais de 10 mil visitantes, 100 expositores, 50 startups e 80 palestrantes. Em quatro dias, o evento promoveu uma ampla agenda de atividades, com rodadas de negócios, desafios de inovação e networking.
Geografia da inovação
Aos pés da Serra da Mantiqueira, no Sul de Minas, Itajubá sustenta um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 4,5 bilhões, impulsionado por mais de 150 startups e empresas de inovação, aviação e suporte industrial de alta complexidade. Denominado Itajubá HardTech, o ecossistema local de inovação concentra mais de 1,2 mil empregos diretos, 600 soluções desenvolvidas e 150 propriedades intelectuais registradas.
Para valorizar esse trabalho, o polo de Itajubá lançou, em maio deste ano, o selo de Indicação Geográfica (IG) para Serviços de Tecnologia, durante o HardTech Innovation 2026. A IG, na modalidade de Indicação de Procedência (IP), está em processo de protocolo no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e é a segunda do país voltada ao segmento de tecnologia. A iniciativa fortalece a identidade do território, amplia a visibilidade das micro e pequenas empresas (MPE) locais, facilita a atração de investimentos e atua como fator de diferenciação e competitividade no mercado nacional.
Presente em Itajubá desde os anos 1980, com o projeto Rota Tecnológica 459, o Sebrae teve papel de destaque no lançamento da IG. Além de mapear os potenciais regionais, por meio da metodologia ELI, a instituição iniciou – no ano passado – uma consultoria especializada para organizar o processo de obtenção do registro. “A Indicação de Procedência será um marco para Itajubá, pois representa um ativo reputacional que ampliará a visibilidade do território”, destaca a analista do Sebrae Minas Andresa Paes
Crédito: Evelimlamaiara - Wikipedia
Há mais de duas décadas, o diretor da Associação Itajubense de Inovação e Empreendedorismo (Inovai), Mauricio de Pinho Bitencourt, acompanha a formação de startups que sustentam os territórios inovadores do Sul de Minas. Para o engenheiro, “o selo IG busca diferenciar o ecossistema ao atestar a qualidade dos produtos e serviços do território, além de valorizar a imagem e a autenticidade de quem desenvolve e produz na região”. Na liderança do setor industrial local,o presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Itajubá (SIMMMEI), Henrique Sérgio de Paula, acredita que a IG consolidará a reputação técnica da mão de obra local. “Com essa indicação, seremos identificados como polo do conhecimento, tecnologia e inovação. Nossos profissionais, quando chegarem a outros locais, serão ainda mais reconhecidos e requisitados”, projeta, orgulhoso.do território, além de valorizar a imagem e a autenticidade de quem desenvolve e produz na região”.
Na liderança do setor industrial local, o presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Itajubá (SIMMMEI), Henrique Sérgio de Paula, acredita que a IG consolidará a reputação técnica da mão de obra local. “Com essa indicação, seremos identificados como polo do conhecimento, tecnologia e inovação. Nossos profissionais, quando chegarem a outros locais, serão ainda mais reconhecidos e requisitados”, projeta, orgulhoso.
Inovação que conecta
Referência em inovação tecnológica no Sul de Minas, o HardTech Innovation 2026 reuniu startups, empresas, universidades, investidores e especialistas em Itajubá para debater tendências e estimular novos negócios. A edição consolidou o ecossistema Itajubá HardTech ao receber mais de 10 mil visitantes, 100 expositores, 50 startups e 80 palestrantes. Em quatro dias, o evento promoveu uma ampla agenda de atividades, com rodadas de negócios, desafios de inovação e networking.
O Sistema Regional de Inovação (SRI), iniciativa articulada em parceria pelo Sebrae Minas e pelo Governo do Estado, foi um dos destaques da programação. “O SRI conecta as vocações e competências dos municípios de Lavras, Varginha, Pouso Alegre, Poços de Caldas, Santa Rita do Sapucaí e Itajubá, gerando uma sinergia que amplifica a formação de talentos, fortalece a atração de recursos e acelera o desenvolvimento econômico do Sul de Minas”, finaliza Andresa Paes.
