Moda
Novo olhar para a cultura local
Projeto Desafio Mãos à Moda Jovem desperta talentos, incentiva a criatividade e valoriza o Vale do Jequitinhonha
Fernanda Santos
“Eu sempre escutei que aqui era o Vale da miséria. Mas percebi que aqui é o Vale da riqueza.” Quem diz essa frase com orgulho é Rhai Silva Freire, de 18 anos. Nascido e criado em Itaobim, no Vale do Jequitinhonha, ele conta que aprendeu a importância de valorizar o local onde vive, mas que nem sempre pensou assim. Seu ponto de vista mudou depois de participar do projeto Desafio Mãos à Moda Jovem, promovido pelo Sebrae Minas.
A iniciativa foi criada a partir da percepção do interesse de jovens estudantes por outra ação do Sebrae: o Mãos à Moda, um projeto inovador, desenvolvido em parceria com a Prefeitura de Almenara, que combinou capacitação técnica em costura e modelagem com empreendedorismo, durante três meses. O objetivo foi resgatar e aplicar as tradições, saberes e ofícios regionais à produção de moda autoral na região. Os participantes lançaram suas criações para a comunidade local e, posteriormente, participaram do Minas Trend Preview, em Belo Horizonte. “Quando divulgamos o Mãos à Moda, das 400 inscrições que recebemos, pelo menos 100 eram de estudantes menores de 18 anos, que não poderiam participar da capacitação por causa da idade”, explica Vanessa Soares Campos, analista do Sebrae Minas. Foi aí que veio a ideia de desenvolver algo específico para esse público.
Iniciativas de educação empreendedora voltadas aos alunos do Ensino Médio já fazem parte das ações do Sebrae Minas. O diferencial do Desafio Mãos à Moda Jovem, segundo Vanessa, foi a temática, dedicada à moda e cultura regional. As atividades ocorrem em quatro etapas. A primeira é o projeto de vida, quando os jovens fazem uma reflexão sobre propósito pessoal, objetivos para o futuro e metas a serem alcançadas. Depois, eles criam o conceito da coleção, em seguida, os desenhos e, por fim, produzem a peça que vão desfilar. Cada fase vai contabilizando nota até o dia do evento, quando os jurados avaliam a criação e o processo por inteiro, escolhendo a equipe vencedora. Os times são formados por grupos de até quatro alunos e um professor responsável.
Ao todo, as duas edições do projeto, em 2024 e 2025, reuniram quase 300 estudantes de escolas públicas nos municípios de Bandeira, Felisburgo, Itaobim, Joaíma, Almenara e Jequitinhonha.
Mais que uma pedra no caminho
Para aprender sobre empreendedorismo, design e moda e aprimorar o processo criativo, as equipes participaram de capacitações e mentorias presenciais na cidade de Jequitinhonha, a 67,7 km de distância de Itaobim, onde estava a equipe de Rhai, coordenada pela professora Juscélia Viana Dutra Cerqueira. Foi a educadora que soube da iniciativa do Sebrae Minas, em 2024, e convidou os alunos da Escola Estadual Chaves Ribeiro para participar. “Eu vi a divulgação do projeto no perfil do Sebrae Minas no Instagram e logo falei com a minha coordenadora, que autorizou a inscrição de equipes. Então, busquei alunos com interesse no mundo da moda, e consegui montar o grupo”, lembra a professora. Além de Rhai, o time Rio do Vale teve a estudante Shófia Oliveira, ambos do 2º ano do Ensino Médio.
Crédito: Leonardo Morais
Juscélia se declara uma apaixonada pelo Vale do Jequitinhonha. Ela nasceu em Itaobim, mas deixou a cidade aos 22 anos e viveu por 14 anos em São Paulo, até decidir voltar para casa. “Voltei por paixão pelo Vale. Queria criar meus filhos aqui da mesma forma que eu fui criada”, diz. Porém, o olhar dos alunos para a região não era o mesmo da professora. Apesar de viverem inseridos na mesma cultura, os adolescentes ainda estavam mais interessados no que vinha de fora e passavam a maior parte do tempo na internet pelo celular. “Eu queria que eles pudessem ver o que eu via. Então, nas idas e vindas para Jequitinhonha, eu pedia que eles olhassem pela janela e prestassem atenção nas cores, na vegetação, e desenhassem tudo o que viam. Não deixava ninguém dormir no caminho, era chata pra caramba”, lembra ela, rindo. Rhai também dá risada quando se recorda dessa época. “No início, eu falava com desdém: ‘Juscélia, é só uma pedra. É mato.’ Mas depois fui enxergando a beleza que existe nesses elementos.”
O Vale da riqueza
Além da observação pela janela do carro durante as viagens de ida e volta para Jequitinhonha, outro episódio contribuiu para a mudança na maneira com que o adolescente percebia tudo o que estava ao seu redor na região em que vivia.
Juscélia passou para a turma do 2º ano um trabalho de pesquisa sobre o Vale. Os alunos deveriam buscar informações sobre a região e expor nas paredes da escola o que encontrassem. Cada grupo ficou responsável por um tema, e o de Rhai foi Cultura. “Conheci a história de Dona Isabel, de Santana do Araçuaí, que me emocionou muito”, conta.
Dona Isabel foi uma das artistas populares mais conhecidas do país, criadora das tradicionais bonecas de barro do Vale do Jequitinhonha. Conhecer sua história instigou o adolescente a buscar saber mais sobre o artesanato e as riquezas da região, além de outras figuras famosas, como o ex-presidente Juscelino Kubitschek. A partir daí, sua percepção mudou e a linha criativa da coleção despontou. “Comecei a ter os olhos que Jucélia já tinha”, conclui o jovem.
Rhai e a professora participaram das duas edições do Desafio Mãos à Moda Jovem com equipes diferentes, mas, nas duas ocasiões, exploraram ao máximo a história e as riquezas do Vale nas coleções. O foco na primeira edição foi o Rio Jequitinhonha e seus pescadores. A base da roupa foi algodão cru, que eles tingiram com argila colorida usando folhas de tomate. O trabalho encantou os jurados e, somado à dedicação da equipe ao longo de todo o projeto, fez com que recebessem a nota máxima e fossem os vencedores. Como prêmio, ganharam uma viagem para Belo Horizonte para participar do Minas Trend Preview.
Crédito: Arquivo Sebrae Minas
Na segunda edição, a preocupação era criar algo diferente e ainda mais ousado. “Para ter inspiração, comecei a pensar naquele mato de que Juscélia tanto falava e lembrei que aqui é uma zona muito seca. Mas não queria mostrar isso apenas como algo ruim”, conta Rhai. Foi então que a nova equipe, a Raízes do Vale, formada agora por ele, Maria Clara Carmona e Júlia Amanda Kalb, decidiu criar um colete com espirais feitas em corda de sisal e uma calça em algodão cru pintada com barro. Para completar, uma bolsa de cabaça e um cordão de São Francisco, para representar fé e esperança.
O desfile foi arrebatador. Ao som da música “Carcará”, de Chico Buarque, Rhai entrou na passarela sem a postura altiva da primeira vez. “Eu estava representando a seca, então fui andando com o meu cordão de São Francisco na mão, como se eu estivesse sofrendo. Minha inspiração foi o livro ‘Vidas Secas’”, explica. E o bicampeonato de Rhai e Juscélia veio. Dessa vez, o prêmio foi uma viagem para Belém (PA), onde participaram da 3ª edição do Desafio Liga Jovem, maior competição nacional estudantil de empreendedorismo de impacto social e ambiental, promovida pelo Sebrae. Foi a primeira vez em que Rhai viajou de avião. O segundo lugar ficou com outra equipe da Escola Estadual Chaves Ribeiro, a Diamantes do Vale, também coordenada pela professora Juscélia.
Crédito: Leonardo Morais
Novos horizontes
Durante muito tempo, o plano de Rhai era seguir os passos dos irmãos: estudar, passar em alguma faculdade (não importava qual), ir embora de Itaobim, graduar-se e trabalhar o resto da vida na profissão escolhida. Mas, ao deitar a cabeça no travesseiro, o sonho era outro: desfilar nas passarelas de Paris e Milão. O amor pela moda começou na adolescência, mas era algo tão distante que não saía da sua cama depois que ele se levantava pela manhã.
Hoje, o projeto de vida de Rhai é outro. O Desafio Mãos à Moda Jovem ampliou sua visão sobre o setor e mostrou possibilidades que antes ele nem sabia que existiam. O plano da faculdade segue firme, mas agora o objetivo está bem-definido: quer cursar moda, para criar sua própria marca de roupas e aprender cada vez mais. “Quero tirar meus desenhos do papel e falar assim: ‘Gente, aquela é uma roupa minha, fui eu que tive a ideia!’ Eu quero viver, quero conhecer as coisas. Não quero viver para trabalhar, quero trabalhar para viver!”
