Histórias de Sucesso

Educação

Da escola para a vida

ALI Educação Empreendedora estimula o desenvolvimento de competências para mudar realidades por meio da inovação


Ana Cláudia Vieira

Inserir a cultura da inovação e do empreendedorismo nas escolas da Educação Básica são os objetivos que orientam o programa ALI Educação Empreendedora, do Sebrae. Por meio do acompanhamento permanente de agentes especializados, o programa apoia instituições de ensino na implementação de iniciativas que estimulam a inovação no ambiente escolar e o desenvolvimento de habilidades empreendedoras entre os alunos, como autonomia e capacidade de solucionar desafios reais e construir novas oportunidades.

Em 2025, 413 instituições de ensino foram atendidas por meio da iniciativa, alcançando mais de 240 mil estudantes. Neste ano, há ações em curso em 469 escolas, com mais de 170 mil estudantes impactados. Os resultados têm sido projetos com relevância para o contexto local, melhoria dos indicadores educacionais e abertura de parcerias que conectaram escolas aos espaços públicos.


De aluno a monitor

Em 2026, menos de um ano após concluir o Ensino Médio na Escola Estadual Coronel Adelino Castelo Branco, em Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Marco Antônio da Silva Filho voltou à sala de aula da instituição. Já cursando Ciência da Computação na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), ele retornou à escola voluntariamente como monitor dos alunos do 1º ano do Ensino Médio em um projeto de tecnologia desenvolvido dentro do programa (ALI) Educação Empreendedora. Há dois anos, Marco Antônio participou da iniciativa e, junto aos colegas de classe, desenvolveu um projeto para monitorar o Rio Sabará e emitir alertas para a população em caso de aumento do nível das águas. A proposta atendia a um dos grandes objetivos da implementação da metodologia ALI nas escolas: levar os alunos a pensar criticamente e a buscar soluções para questões locais. Na cidade, as enchentes são um problema centenário, que afeta a população de diferentes formas.

Equipe da Escola Estadual Coronel Adelino Castelo Branco durante atividade do ALI Educação Empreendedora
Crédito: Arquivo pessoal

“Nós tratamos de uma questão que era mais do que geográfica, era identitária e cultural. Porque os moradores já estavam normalizando, naturalizando a situação das enchentes, com a ideia de que, se todo ano chove, o rio transborda e acaba com tudo, não precisa arrumar”, relata a diretora pedagógica da Associação Centro de Educação Tecnológica do Estado da Bahia (CETEB), Lúcia Maria Araújo Machado. Em 2021, a entidade fez uma parceria com o Governo de Minas, via edital, para promover ações que reduzissem os altos índices de violência e de evasão escolar identificados, além de melhorar o baixo desempenho dos alunos. Responsável por todo o projeto pedagógico, a Associação encontrou no ALI uma forma de sistematizar a educação empreendedora, com ações realizadas desde 2024 e apoiadas pelo Sebrae. “O ALI agregou um senso de autorresponsabilidade, de comprometimento e de engajamento muito maior. O resultado desse trabalho com a equipe docente é muitíssimo valioso. Eles compreenderam que não é só uma metodologia pedagógica de sala de aula. É uma forma de você transformar uma situação em problema, analisar e encontrar a solução”, complementa Lúcia.

A análise da diretora é confirmada por Marco Antônio. “Uma das palestras destacou que muita gente entende empreendedorismo apenas como cuidar de empresas. Mas ser empreendedor é mais. Você empreende em um projeto da escola, como fizemos; na sua própria vida pessoal; na sua vida profissional. Eu acho que todo mundo que teve contato com o Sebrae na escola e com as competições leva isso adiante.”

Olhar para o entorno

No ano de 2024, o ALI Educação Empreendedora foi implementado na escola de forma integrativa, envolvendo as diferentes disciplinas e permitindo que, a cada ano, os alunos possam ampliar os conhecimentos e capacidades. O primeiro passo foi estimular no aluno a habilidade de problematizar as situações ao seu redor, de forma crítica, mas estruturada. “Nós trabalhamos no modelo de ensino por competências, em que desenhamos a arquitetura pedagógica para atender ao contexto local, de idade, escolaridade e regionalidade”, explica a diretora pedagógica do CETEB.

A diretora da escola, Ana Carla Chicarini, explica que, já com os projetos em desenvolvimento, foi realizado um seminário para a apresentação de todos os projetos integradores à comunidade. Participaram empresários, representantes de escolas, da prefeitura e de órgãos competentes que poderiam ajudar nas ações, além de agentes do Sebrae. Após a finalização do processo, os alunos apresentaram os projetos em sala, na chamada “Vitrine Pedagógica”. Ao longo de todo o ciclo, o Sebrae Minas ofereceu capacitações, ajudando a fortalecer a cultura empreendedora. “Nosso papel é atuar como facilitadores dos processos de inovação. Escutamos a escola, realizamos diagnósticos, ajudamos a identificar prioridades, promovemos formações, acompanhamos a execução do plano de ação e estimulamos que gestores, professores e estudantes construam juntos as soluções mais adequadas para sua realidade”, conta a agente local de inovação Nilza Leal. Gestão de Projetos, Rotas de Liderança, Inteligência Emocional e Protagonismo e Educação Empreendedora foram temas trabalhados.

Os resultados foram considerados excelentes. Das 15 turmas da escola, 11 inscreveram projetos e participaram do Desafio Liga Jovem, a maior competição de empreendedorismo social nas escolas brasileiras para alunos do 8º e 9º ano do Ensino Fundamental e do Ensino Médio e Técnico, realizada pelo Sebrae. Além do trabalho da equipe de Marco Antônio, outros exemplos de projetos desenvolvidos foram a proposta de uma solução de purificação que utiliza a casca da jabuticaba para filtrar água com maior eficiência, unindo ciência e recursos locais, e uma parceria com Emater e Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Sabará para transformar resíduos orgânicos em adubo para revitalização dos espaços verdes da escola.

A Feira do Pequeno Empreendedor e a participação em competições nacionais foram marcos do projeto na escola de Sabará
Crédito: Arquivo pessoal

Para a analista do Sebrae Minas Pollyanna Gontijo, os resultados alcançados mostram que a receptividade da escola é a porta de entrada para o sucesso da educação empreendedora. “Quando a instituição de ensino abraça a proposta e acredita no potencial dos estudantes, a educação empreendedora ganha vida: o aprendizado se conecta ao território, problemas reais tornam-se oportunidades e o empreendedorismo deixa de ser conceito para se transformar em ação e impacto”, ressalta.

Prática da vida real

Na Escola Estadual José Freire, em Juiz de Fora, a parceria com o Sebrae Minas começou em 2020, antes da pandemia, com foco em implementar as recomendações do Novo Ensino Médio. Em 2024, a estratégia foi ampliada e aperfeiçoada com o ALI Educação Empreendedora. O vice-diretor da escola, Leonardo Serrão, avalia que trabalhar os conteúdos de forma interdisciplinar foi fundamental. “A abordagem favoreceu o envolvimento de professores, estudantes e equipe pedagógica na construção de uma proposta coletiva, fortalecendo o compromisso de todos com a aprendizagem e o desenvolvimento dos alunos. Cada docente contribuiu de acordo com sua área de atuação”, diz Micheli Aparecida da Silva Salles, agente local de inovação da escola.

Os professores de Matemática, por exemplo, se concentraram nos conteúdos de educação financeira, planejamento e organização de custos. Já os de Arte e Língua Portuguesa contribuíram com aspectos ligados ao marketing, à criatividade, à construção da identidade visual das empresas e à comunicação. “Cada equipe de professores assumiu um papel estratégico no desenvolvimento das competências necessárias para a realização da Feira do Pequeno Empreendedor”, acrescenta Micheli.

O evento aberto é um espaço para que os alunos coloquem os conhecimentos em prática. Na edição de 2026, por exemplo, dos 450 alunos do turno da manhã, 240 participaram; já no turno da noite, dedicado à Educação de Jovens e Adultos (EJA), 92 dos 120 alunos participaram.

Da esquerda para a direita: Maria do Carmo, Micheli Salles, agente ALI, Leonardo Serrão, vice-diretor, e Valéria Alves, professora e responsável pelo projeto na escolaCrédito: Obelisco Filmes

A artesã Maria do Carmo Carneiro foi uma das alunas a colocar em prática os conhecimentos sobre empreendedorismo. Ela concluiu o 3º ano do programa EJA em julho deste ano e, embora empreenda desde 2006, produzindo bonecas de pano e pesos de porta, conta que foi nas atividades do ALI que teve acesso a algumas habilidades que têm feito a diferença nas atividades administrativas do seu negócio. “Aprendi a pedir um adiantamento no pedido de uma peça, a como conversar com o cliente para saber exatamente o que ele deseja... Isso porque tudo que eu faço é personalizado. Então, eu tenho que ter certeza dos detalhes”, conta.

Analista do Sebrae Minas, Maria Nilda Viana avalia que os resultados da Escola Estadual José Freire representam o que vem sendo trabalhado com a educação empreendedora na região. “Ver ações como a Feira do Pequeno Empreendedor se consolidando no calendário da escola, além de relatos de estudantes que levaram esses aprendizados para a vida, demonstra a força desse trabalho. A educação empreendedora vai além da escola. Ela contribui para o desenvolvimento territorial ao formar jovens mais preparados para atuar em suas comunidades, gerar valor, identificar oportunidades e se tornarem agentes de transformação nos locais onde vivem”, ressalta.